«Neva»: Actores Ancorados num Teatro Devolvido pelo Texto

Artes Performativas

 

Daria tudo para estar morta hoje”.
Masha, 2015, palco do Teca (Porto), interpretada por Sara Barros Leitão, ao lado de Aleko (Cristóvão Campos) e Olga Knipper (Lígia Roque), partindo de um texto “precioso” e descoberto há dois anos por João Reis que encena «Neva». O texto nome de rio, do rio que atravessa São Petersburgo, escrito pelo chileno Guillermo Calderón para falar da importância do Teatro na vida e da vida no Teatro. Parece tão lugar-comum a ideia assim expressa, mas aquilo que João Reis, a partir de hoje e até15 de Novembro, no papel de encenador deste espectáculo nos devolve (mais do que dar ‘Neva’ é devolver) é, de facto, o Teatro pelo texto e a genialidade de Calderón. Poderia ser no Chile e na ditadura de Pinochet quando se fala de corpos a boiar no rio Neva, mas a verdade é que no palco do Teatro Carlos Alberto, o Chile é uma metáfora com a mesma dimensão quanto a de Atenas, cidade que não tem rio mas teve manifestações violentas e com certeza actores que nunca pararam de ensaiar. A capital da Grécia é o exemplo que o encenador  mais refere…. e isto dos paralelismos do Teatro com o que se passa na actualidade deixa de ser pergunta quando o Teatro é exactamente isso! É exactamente isso e não o tempo em que vamos espairecer depois de um dia de trabalho ou de desemprego. Aceitemos a primeira provocação e façamos o favor de pensar um pouco. Aliás, de pensar muito quando estivermos em frente de «Neva», não o rio, mas o espectáculo com três actores a quem um encenador deixa “um texto justo onde se possam ancorar”. E aí então, de frente para o «Neva» vamos sentir-nos embaraçados, pequenos talvez e sentir um pouco do Teatro com tudo de bom e mau. João Reis não foge nada ao que Guillermo Calderón coloca em questão – até o reforça? – incluindo a utilidade vital do Teatro, mesmo sob a urgência ou inevitabilidade de largar um ensaio e lutar fora de palco.

nao querer crescer

O TEATRO A PARTIR DE UM TEXTO

O «Neva» do Teca tem tanto de coragem… que se por um momento pensarmos que poderia ser escolhido um qualquer outro texto sobre a urgência das coisas… Mas não. Ora! Deixemo-nos de minudências e sejamos honestos em relação ao Teatro e ao que Ele pode fazer. E que enorme será o risco do Teatro quando ouvirmos a anarquista Masha falar de uma armadilha burguesa e do quanto ”simplórios” somos.

O TEATRO A PARTIR DE UM TEXTO

Voltemos ao início: “Estamos no ano de 1905 e acho que o Teatro acabou”. Neva é o rio… e lá fora há neve e corpos a boiar sim, o domingo sangrento da revolução russa. A guarda do Czar abre fogo sobre a multidão de operários em manifestação pacífica. Entretanto, três actores numa sala de ensaios. Ensaiam «O Cerejal», de Anton Tchékhov, e depois brincam no Absurdo às interpretações e peças, às reconstituições e aos monólogos.

adeko e a viúva que não quer ser gorda... nem galinha... a pulsão

«O Cerejal» de Tchékhov então… e os dois actores mais novos a reconstituir, precisamente, como teria sido a morte do dramaturgo. A actriz que chega sempre atrasada está mais atrasada do que é habitual, o director da companhia ou o actor que vai ter um filho que pensa ser dele… enfim… esses, diga-se sem medo de estragar a narrativa (que é muito mais do que narrativa), não vão chegar. Não estão atrasados. Estiveram na revolução ou… ou foram apanhados por ela? São as leituras do Teatro a partir daqui de quem o vê. E estamos tão dentro da peça que raramente nos passa pela cabeça que existe uma revolução fora daquela sala de ensaios que a cenografia de Nuno Carinhas apontou como pouco mais do que isso… uma sala preta de ensaios igual à de tantas outras, mas com elementos de Tchékhov. A cortina que vão ver é da peça «Tio Vânia». Tchékhov atravessa a peça toda e nós embrenhados nele. Vale a pena uma reinterpretação cénica sobre um pouco da vida e da morte do escritor que tinha nas suas peças o drama pontuado de humor. E também na escrita de Guillermo ele está… o humor.. também ele está ali no «Neva».

João Reis: “Neste Teatro dentro do teatro podiam ser perfeitamente colocados em cena momentos de humor que o texto tem.. num registo de farsa. Optei por um registo mais sério. Ou seja, quando as personagens falam, fazem-no pelo registo que o Stanislavski pediria, por exemplo.
(Olga Knipper: Quem se emociona é o público não o actor!)
Os momentos de comédia são momentos de descompressão… simultaneamente”.

Absolutamente necessários. Cada um destes três actores e personagens tem falas tão fortes que nós sentimos um Teatro contemporâneo sem medo do Clássico e um palco. Isso. O desenho de luz de Nuno Meira incide sobre cada um deles, um pouco mais forte que a restante e discreta luz, como se fosse um elemento que pode dar levemente uma incidência ao nosso olhar sobre o que vai na cabeça deles… a essas falas que podem ser momentos de psicose ou de sanidade. Nós não sabemos o que é verdade porque eles também não. Eles representam e falam de Teatro e das suas vidas ligadas ao Teatro quando o resto da vida não pára para lá do palco.

tres actores e a verdade ou fingimento do teatro

O TEATRO A PARTIR DE UM TEXTO

Temos então a história de Tchékhov, a história política do início do século XX, através da revolução Russa – a mesma que inspirou muita gente no Chile e depois foi sendo olhada sob outro prisma… por quem com Ela cresceu a ouvir contá-La – e a história da verdade e utilidade do Teatro.
(Re)Situemo-nos: Tchékhov… a sua viúva há seis meses Olga Knipper, incapaz de representar. Aleko, o jovem prodigioso actor, cristão, que até um teatro em casa tinha e Masha, uma apaixonada, ciumenta, anarquista, revelando-se a voz do optimismo e pessimismo que cada um de nós tem.
Aleko: “Não sei amar sem bater
(…)
Masha: “Têm que arder as igrejas, os museus, as prisões e alguns homens”.

E nós… nós simplórios sentados nas nossas cadeiras emprestadas a perguntarmo-nos quanto dura a peça, olhando a folha de sala sem perceber ainda que esta peça dura desde 1905 e não tem fim. Não tem tempo mas fala de um tempo. Sendo contemporânea é um clássico. Nós, simplórios iguais a Olga Knipper, a viúva: “vêm ver-me… vão-se rir nos momentos errados”.
Nós a pensarmos com os estudos publicados e mais estudos e opiniões… menos História, nós com o imediato da espuma dos dias– essa frase para dizer sempre tudo tão banal das nossas vidinhas ou vidas enormes – a querer o talento de Aleko, elogiado permanentemente pela viúva de Tchékhov, a seguirmos o seu Deus para vivermos no campo, nas coisas simples. Será que há empatia por Aleko? Por Olga? Ou a redenção de tudo está em Masha? É o Teatro em toda a sua possível perversão, não o descartemos.

a morte reconstituída de Tchékhov

O TEATRO A PARTIR DE UM TEXTO

Seria óbvio cair em sketches… há monólogos a preparar, competência de actor a demonstrar, novas gerações de ver o Teatro e a vaidade de quem entre eles actores, mesmo ligados com promessas de amor, quem de entre eles é o melhor. Mas João Reis dá-nos a linha contínua de uma só história de um só momento, sob o altruísmo de devolver o Teatro, o Palco e sobretudo o Texto aos actores. São eles que nos contam as histórias todas dentro da História. Os teatros todos dentro do Teatro.

<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos>João Tuna

de
Guillermo Calderón
tradução
Joana Frazão
encenação
João Reis
cenografia e figurinos
Nuno Carinhas
desenho de luz
Nuno Meira
assistência de encenação
Carlos Gomes
guarda-roupa
Maria Gonzaga
produção executiva
Sofia Ventura
interpretação
Lígia Roque, Cristóvão Campos, Sara Barros Leitão
coprodução
O Lince Viaja, TNSJ
coapresentação
São Luiz Teatro Municipal
apoio à tradução
SONAE

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