Quando Não Sabemos Mexer as Mãos…

Artes Performativas

 

Amanhã… hoje, todos falarão do Dia Mundial da Dança e nem só de contemporânea se escreverá. Antes que isso aconteça, e tendo em conta que a TKNT vai acompanhar o festival Dias da Dança – hoje pausa na dança enquanto os outros a abordam na sua lógica anual – fica já um pouco do registo daquilo que está a ser feito em Santa Maria da Feira, integrado no projecto da cooperativa Casa dos Choupos, para estrear a 20 de Maio no Imaginarius: «Não sei mexer as mãos». “Assustador e Belo”. Diz isso Helena Oliveira que ensaia e coreografa um grupo de idades muito separadas… A Poesia no Corpo O Corpo na Poesia. Há uns anos eram dois grupos: Um de poesia outro… de dança. Fundiram-se. E desde há algum tempo, assim o sabemos, mantém-se o grosso das pessoas que, ainda que cidadãos não artistas – essa coisa que se lhes chama – têm trabalho de dança contemporânea e texto suficientes para não ter medo do palco e não sermos nós condescendentes com eles. Exigência nossa de público e de Helena, que quer falar da memória neste espectáculo com o Totona (corticeiro), a Celeste e a Constança (reformadas?) ou o Marcos que trabalha na restauração. E a sinopse parte deles. Na Casa do Povo da Feira… precisamente um mês antes da estreia: “Não é para marcar, é para fazer Escrevem nas mãos, espalhem-se pelos espaços vazios. (…) A diferença entre marcar e escrever não é artificial; Não pode morrer , não morre aí no meio”.

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Sónia que tem emprego novo e vive em Gaia, regressando todas as semanas à Feira para ensaiar… Sónia faz o solo mais intenso. Pelo menos é a que se cansa mais. Será assim a memória que tem? “Inicialmente a Sónia era tão forte que era overdancing”. Cada um deles desenvolve um solo, leva textos sobre a memória e… podemos dizer… micro coreografam o espaço vazio para eles e, em colectivo, são coreografados. Começam os textos com os movimentos associados: “a memória pode ser feliz ou reconfortante ou triste e assustadora (…) A memória é um barco que corre as margens do rio (…). Maria fala e fala… e não tem medo de falar… é a mais nova, 13, 14 anos?. Num movimento Celeste faz um esgar…

Helena: precisa de alguma coisa Celeste, quer parar? (a exigência toda forma-se numa doçura que se estende ao relacionamento entre eles… eles grupo)

Celeste: é do estômago

Helena: Quer água?

Não … Isto é meu.

A arte salva Totona da rotina. Um dia no hospital com Inês Pinho, uma das responsáveis da Casa dos Choupos, descobriu: “eu quero dançar e não o consigo fazer com este peso”. Emagreceu e nota-se das imagens dos espectáculos de ano para ano. “Integra-se e ajuda os outros a integrarem-se. O Marcos vinha da dança jazz…. eles não se sobrepõem e isso é o mais lindo e poético. Lindo porque, naturalmente, não estão todos ao mesmo nível, mas todos sabem o seu lugar”.

a poesia 2

Constança abate-se e será do estômago? Helena diz a Totona para levar Constança a voar. Enquanto o grupo ensaia, Totona pega em Constança ao colo e pega nos seus sessenta e poucos anos rodando-a a uma velocidade que o ouvido interno de certeza se ressente. Mas ela desmancha-se em gargalhadas. Voltam à memória e não sabem o que fazer às mãos.

Helena Oliveira: “Queria fazer um trabalho sobre a memória há muito tempo… dedico esta peça à minha avó a quem fui vendo perder a memória e sobre quem fui ficando intrigada neste aspecto: O que acontece ao corpo das pessoas quando a memoria se apaga? Aqui há memória abrangente e a memória específica. Partilha”.

A Mariana fala dos irmãos gémeos e há quem construa frases coreográficas numa aflição que não se pode nem se quer nem se consegue descrever em texto. Há quem mande as pernas andar.

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a poesia

Na minha escola (…) arrastaram o estrado e os tijolos escuros e tenho medo,,,, mas achava que tinha de proteger a…. ai Terra bichos”; No meu tempo a vida era mais simples”

No momento em que este texto está online já os ensaios estão mais avançados, mas a certeza de que estão à procura da memória continua. E é isto que faz a Dança, por exemplo, nomeadamente a contemporânea, no que toca ao respeito pelo nível dos outros, pela partilha e pelo colectivo que se pensa e que pensa uma coisa tão importante quanto… não saber mexer as mãos.

(texto recomeça a dois dias do espectáculo no festival Imaginarius)

Nuno F. Santos

Fotos: D.R.