«Morrer na Praia»? Somos “Todo Olhos e Todo Ouvidos”

Artes Performativas

 

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Psiquiatria no Teatro do Campo Alegre. Uma peça de teatro que é uma comédia negra provocadora. Fala do luto e da exclusão de quem o deveria tratar. «Morrer na Praia» é teatro em 15 minutos com muitas cambiantes. Psicologia no Café Ceuta. Duas psicólogas com um projecto que não quer excluir ninguém. «Todo Ouvidos» é realidade em 15 minutos… a partir daí escolha você o tempo que precisa.

Uma mulher entra num consultório de uma psiquiatra. Chama-se Leonor. Perdeu o marido na praia, perdeu-o literalmente. Não sabe mais nada, não se lembra de mais nada. E provavelmente o marido era tudo porque é tudo o que lhe vem à memória: que o perdeu. Isto é base de uma peça de teatro escrita e encenada por Filipa Leal e que hoje e amanhã está em cena no Teatro do Campo Alegre.

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Um homem sobe a rua de Ceuta. Já viu reportagens em canais de tv sobre duas psicólogas que estão sentadas no café Ceuta para ouvir pessoas. Entra, pede Um Escuto no balcão, a única coisa que mudou neste café da baixa portuense desde que abriu pela primeira vez a porta. No reverso da medalha Escuto lê-se “Todo Ouvidos”. Sofia Melo é uma das psicólogas do projecto. Bebe Chá. Ela e Lara Morgado querem mudar a forma como, regra geral, os profissionais da classe escutam e fazem terapia com as pessoas, nem que seja a começar pelo local, disponibilidade e preço. É o palco do realidade, em cena todos os dias.

«Morrer na Praia», a peça, é uma conversa entre duas actrizes que representam cliente (Inês Veiga de Macedo) e psiquiatra (Ana Lopes Gomes). «Todo Ouvidos» é um projecto com duas psicólogas verdadeiras no Café Ceuta. Ambas as conversas, a do teatro e a do café, têm 15 minutos de duração. Com uma diferença: «Morrer na Praia» poderia ter uma continuação, ser alargada mas a encenadora tem dúvidas quanto a isso. “Porque o final terá, acho, de ser o mesmo”, dia a também autora da peça, Filipa Leal. O projecto «Todo Ouvidos» pode sempre ter mais de 15 minutos. Basta para tal que requisite uma nova moeda Escuto ao balcão. Mas não se preocupe… não há um alarme a relembrar o quarto de hora.

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Filipa Leal é “a trágica” diz… e dizem as actrizes Ana e Inês, brincando. Mas a peça, desde a sua estreia no Teatro Rápido, em Lisboa, tem vindo a tornar-se progressivamente numa comédia. Talvez porque o trabalho a três na encenação e na construção das personagens, saídas do diálogo sintético de Filipa, vá fazendo essa transformação. Como se estas três pessoas (actrizes e encenadora) fossem evoluindo na terapia de cada vez que um espectáculo é apresentado.

Queremos acreditar que esta peça, este diálogo pode surgir do impacto de alguém que pode ter perdido tudo – todos perdemos tudo a algum momento – e que é uma tomada de posição contra aquela forma de fazer terapia… pelo menos a que imprime à personagem que vai usando clichés, não dando o benefício da dúvida à mulher que se lhe apresenta fragilizada. No café, bebendo chá e olhando a colega Lara, convidada de um programa day time da RTP a explicar o projecto. E Sofia: “O que nós precisamos é de, às vezes, ouvir uma opinião diferente daquela que tem o amigo. Embora seja claro que temos neste projecto a ideia de transformar a Psicologia levando-a, de facto, às pessoas. É assustador o grau com que as pessoas se sentem sozinhas e às vezes… às vezes não têm com quem falar”.

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Teatro (Filipa Leal): “Ela vai confessar-se a uma psiquiatra ainda de coração aberto e depara-se com uma mulher fria, distante. A partir daí acha que é a mais lúcida na sala”.
Café (Sofia Melo): “Não é preciso ter um problema para estar aqui comigo. Estamos num café, mas não estamos sinalizados com néones. É apenas uma conversa”.
Teatro (Inês Veiga de Macedo… a actriz que interpreta Leonor): “Muitas vezes não ouvimos o outro, perguntamos só o que queremos que nos digam… isso é excluir e isso faz parte do jogo que confrontamos na peça”.
Café (Homem que faz a entrevista e que aproveita o Escuto): “Os meus ataques de pânico são sempre a morte súbita. Não há outro pensamento que não passe por aí. É como estar na ponte, ter vertigens e depois… não saber se voltar atrás ou ir até ao fim da ponte. Fico paralisado e digo que vou morrer… e quem sabe já nem me dá o benefício da dúvida, da minha dúvida”.

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«Morrer na Praia» é despojado de um cenário complexo. São necessários apenas dois sofás e uma luz. E aqui Filipa Leal quer deixar bem claro, tal como a mulher que confronta a psiquiatra, achando que não está louca e que tem a força para dar a sua opinião sobre o que a leva a intitular-se até démodé:
“Para mim era fundamental contrariar a performance actual que me cansa enquanto público. A performance que me parece em que estão todos mais concentrados no conceito do que na arte em si mesma. Quando sonhava com uma peça minha em cena, sonhava mesmo com um texto clássico sem artifícios. Uma história absolutamente perceptível e o cenário adequa-se. O texto e o trabalho das actrizes são o mais importante. Se há conceito… esse é o meu conceito: é não ter conceito”.

O público vai acabar por ter a liberdade de decidir se a mulher que perdeu o marido na praia está louca ou não. O mesmo  público que vai, em 15 minutos de espectáculo, moldar várias vezes a sua opinião sobre todos os envolvidos neste processo de construção da peça. São todos excluídos, somos todos excluídos. “Já todos amámos e sofremos”, tragicamente Filipa assume amor e sofrimento para o palco, sorri e faz as pazes com a sua personagem psiquiatra nesta entrevista. Já as fez há muito, talvez desde o momento em que percebeu que Ana Lopes Gomes iria ser a sua psiquiatra de «Morrer na Praia». Foi quando a viu em «Termas», no Teatro Nacional D. Maria II. Ana apoderou-se entretanto das palavras de Filipa e construiu também a sua personagem… é que ela tem de estar preparada para tudo, numa consulta que de normal não tem nada. São 15 minutos, mas é o mundo de três cabeças numa consulta a dois. Três cabeças? Sim… encenadora e as duas actrizes. Não digam que pensaram que estávamos a escrever sobre o marido perdido…

Sofia Melo, a psicóloga de verdade, diz que ela e Lara Morgado escolheram o café Ceuta porque, “além de emblemático, recebe todo o tipo de pessoas. É democrático, aqui toda a gente se funde… ninguém estranha que duas pessoas, que aparentemente não tinham nada para falar uma com a outra, estejam na mesa do fundo a conversar. E uma delas escuta o que a outra tem para dizer, não a exclui nem em tempo nem em valores monetários impróprios para quem precisa de conversar.
E… e se pudéssemos trocar o Escuto. Agora o Homem escuta Sofia. “Gosto de Pearl Jam, a oferta cultural do Porto é maior, mas deve ser alargada a todos os escalões etários e sim… sim aqui no Ceuta à medida que o tempo passa a qualidade da música aumenta… Nina Simone, Chico Buarque, Elis”.

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Café (Homem): “Tem o livro da vida, o filme da vida? Enfim, estou a tentar ser eu Todo Ouvidos”.
Café (Sofia): “Vários, mas neste momento estou a ler o livro «Voando Sobre um Ninho de Cucos». Consegui uma edição original na Internet… não sei se leu o livro?”
Café (Homem): “Não não. Só vi o filme”.
Café (Sofia): “A história é a mesma, mas a personagem do índio… no livro é o narrador”.
Café (Homem): “Mas como é que chegou a esse livro?”
Café (Sofia): “Estive num festival de cinema na Bulgária e um amigo meu falou-me dele. Foi um acaso. Como voluntária nesse festival, que se chama In The Palace, fiz um Curta com estudantes de cinema… chama-se ‘The Invisible Palace”.

A TKNT prescreve para os dias de hoje e de amanhã (15 e 16 de Novembro) a peça «Morrer na Praia» no Teatro Campo Alegre e, para quando quiser conversar e ouvir Chico, Jazz e Chill Out vá ao café Ceuta. A Lara ou a Sofia estão lá para o ouvir, profissionalmente, mas de uma outra forma de segunda a sábado das 16h00 às 22h00. Entretanto, a Sofia prescreve para quem leia esta peça o filme «Jeux d’Enfants». “As melhorias serão imediatas”.

Terminando…. Seria tão curioso que pudéssemos trocar sempre de lugar com quem nos analisa. Já alguém pensou nisso?

nota:  «Morrer na Praia» 21h30/ 22h: Sala-Estúdio do Teatro do Campo Alegre (Rua das Estrelas, s/n) – duas sessões por dia / lotação da sala: 60 pessoas. Reservas para o TCA – telefone: 22.6063000. (Horário da bilheteira do TCA: 14h30-19h00 / 20h00-22h30.)

<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos Morrer na Praia> ……..
<Fotos Todo Ouvidos>TKNT
<Fotos Café Ceuta>DR