«Mapa»: A segunda Pele do Cidadão do Porto

Artes Performativas

 

Um mapa de reivindicações está no palco. Sala Suggia, 21h00, Casa da Música. E é da música no cortejo, das partners ditas à maneira portuguesas à televisão local… é nesse ambiente que tudo roda como a tômbola do sorteio da enorme lotaria de papelinhos e papelões que terá de sair, dê por onde der, a uma de três tribos. Quais? Lagarteiro, Vitória e Lordelo.  Reina um pequeno caos organizado, próprio de cada cidade. No caso particular do Porto, que de cidade representada em estátua com dragão na cabeça… se transforma em carne e osso como para falar aos cidadãos. Mais do que soldado como o que está de pedra na Avenida dos Aliados, este parece também um semi Deus e fala às tribos/povo da “Invicta” padroeira. Está exilada e um dia terá de ser resgatada. Mas não com tais cegueiras de rivalidade entre tribos que são vozes de bairro à televisão e aos que hoje virem ao vivo o espectáculo das pequenas multidões que largaram as casas da periferia e do Centro Histórico para contarem por entre si que assiste na Casa da Música a uma espécie de tragédia grega. Apenas pelo ritmo que tem, pela moralidade e não moralismo, pelas palavras que se fazem rima à medida que cada personagem, nunca muito diferente do que é na realidade, imprime na cena. “Cena” de direcção de cena, de significado teatral… mas poderia ser uma cena de calão. Então não é que o hip pop ou o rap faz parte de um dos gritos, o do Lagarteiro.

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Largam-se as formalidades. Megafones, luvas, cabelos compridos em rabo de cavalo, argolas, paus na mão. Como sempre, sem filtros! Estar de frente para estas pessoas com quem nos cruzamos ou atravessamos o passeio às vezes para não nos cruzarmos  – é bem verdade de parte a parte quwe a diferença e classe social mete medo às vezes –  é, precisamente, estar de frente com os nossos preconceitos do subconsciente relativamente a bairros da cidade. Sim, aqui é tudo encenado, pois. Mas entendam que o grupo de teatro a Pele, com Hugo Cruz ao leme, Susana Madeira junto à boca de cena, o Serviço Educativo da Casa da Música e o Teatro Nacional São João convergem para formar um mapa de cidadãos onde, como o próprio Porto diz: “possa construir em vez de apagar”. Um mapa de uma cidade ideal onde a moda e o turismo podem não chegar para parar os homens que tratam mulheres como lixo, mas é preciso que se pague… nesta e em todas as outras cidades do mundo. Continuando a apagar: casas sem gente, gente sem casa e ter os idosos sempre… não abandonados, que é como se sentem estas tribos… abandonadas pela própria cidade. E sem medo são eles mesmos cidadãos com deveres pois claro nessa revolta. E nós, que nos diferenciamos às vezes de gostos sem olhar que os acessos são diferentes quer queiramos quer não,  nós ali, de frente para eles a sermos confrontados também com as nossas consciências e a relativizarmos os nossos problemas. Protestam alegres – vá-se lá perceber – a metros de nós ou nem a um metro.

A mesma mulher de peito feito e voz rouca a meio metro… a mesma que momentos antes diz junto aos camarins: “25 minutos à tua espera Sérgio??? 25 minutos!” E ele sorri, sabendo que nada lhe acontece. Enquanto um estranho fica a pensar que aquele vozeirão pode fazer alguma coisa de pau na mão! Mas não, é de quem não conhece mesmo. Mas rapidamente este estranho percebe que nos camarins é tudo igual, e até nós que estamos ali à cata de palavras e expressões, gestos e apontamentos antes da entrada em palco, sentimo-nos logo Deles e da peça. Somos das Tribos.  O Dior, sim – não é nome mas é como me chamam, “como a marca” -, o Dior distribui os bilhetes de lotaria, tão dourados como os que dão acesso à Fábrica de Chocolate no filme de Tim Burton. A referência, de tão tonta, não deveria entrar neste texto mas não resistimos. São mesmo dourado, fazendo-nos sentir ainda mais especiais, prestes a entrar num cenário mágico.

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Hugo Cruz, o encenador, que da estreia no Mosteiro de São Bento da Vitória para agora adaptou algum texto, deu primazia a palavra, aprofundou a parte musical, retirando figurinos que estão nas primeiras fotos, chega de flores amarelas no pescoço e pede silêncio:  “Não se deixem enganar pelas flores,  só fico querido no final. Partners não entram agora! Assim que o Sérgio chegar vai directo ao microfone“.

As pessoas falam no ensaio geral e não há descrições de maior, nem de exotismo na reportagem. É que o mundo nos camarins é tão normal, com pessoas tão do quotidiano que somos como elas e queremos é entrar no Mapa também.  O encenador, entendendo que ali estamos tem demasiado que fazer  e gerir mas  permite-nos. E continua:  “O Luís tem o megafone? Toda a gente tem as taludas? Toda gente tem  as gaitas?  (Risos muitos e duas mulheres dizem que não têm gaita, rindo  abafadas pelo burburinho da entrada e das indicações). São precisos dois isqueiros para uma das cenas. “Dois, não vá um falhar”.

Fernando Macedo, da Vitória,  sossega o pandemónio. “Vai correr tudo bem. É só entrar quando formos chamados e depois, no palco, as coisas desenrolam-se”. Claro que são cerca de 15o pessoas envolvidas no espectáculo mas… será que nem um nervoso miudinho? Na Suggia os gémeos: Vicente e Salvador vão ser entrevistados pela apresentadora. A Xana está numa das portas de entrada e os outros preparados. Cada qual tem uma fala que lhes vem de dentro sobre o que sentem mesmo, acrescendo à dramaturgia de Regina Guimarães coisas bem vivas. E o texto: “Somos o povo das tripas e o que sentimos vomitamos(…) É preciso o direito a ter direito. DIREITO A TER DIREITO?” O Porto a responder: “Se tortuoso vos pareço é porque a vossa mente é distorcida (…)  O cidadão tem na cidade a sua segunda pele.

Tribos: Até os anónimos?
Porto: Sobretudo esses

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Foto de Paulo Pimenta em o Público, com Ana Cristina Pereira: http://www.publico.pt/multimedia/fotogaleria/mapa-346667#/0

Ninguém é esquecido. Grupos de teatro amadores, associações, grupo de surdos e uma intérprete de linguagem gestual constantemente em palco. As bocas ao Polis, as coisas comezinhas e as mais importantes nunca são discurso batido, tendo em conta que estes são aqueles para quem as queixas mudam apenas de local: passam dos seus bairros para um palco, na Casa da Música. No fim, o mapa será desenhado numa lógica corajosa de contrapoder. Só isso poderia chegar, mas é muito mais.

Texto de Nuno F. Santos a convite de Hugo Cruz, da Pele, que prefere que esta segunda apresentação de «Mapa – O Jogo da Cartografia» seja uma versão mais crua,mais próxima do real.

 

Ficha Técnica

Ao Alcance de Todos
Criação Colectiva
Hugo Cruz direcção
Susana Madeira assistência de direcção
Regina Guimarães a partir de criação colectiva texto
Bruno Estima direcção musical
Óscar Rodrigues, Pedro Augusto, Tiago Oliveira músicos Coro Clássico do Orfeão Universitário do Porto; Coro Sénior da Fundação Manuel António da Mota; Grupo de Percussão do Centro de Iniciativa Jovem e Orquestra Comunitária de Lordelo do Ouro
ADILO grupos convidados
Hugo Ribeiro cenografia
Wilma Moutinho direcção técnica e desenho de luz
Tiago Ralha, Pedro Augusto desenho de som
Lola Sousa figurino da personagem “Porto”
Grupo AGE, Grupo Auroras – Lagarteiro, Grupo de Teatro Comunitário EmComum – Lordelo do Ouro, Grupo de Teatro Comunitário da Vitória – Centro Histórico e Grupo de Teatro de Surdos do Porto, Actores de teatro comunitário da cidade do Porto interpretação
PELE, Teatro Nacional São João e Serviço Educativo da Casa da Música co-produção
ADILO, ESMAE e ASP apoio
Porto Canal media partner