Judas Vais Rebentar Porque o Fogo Não é Tabu!

Artes Performativas

 

– Vamos ter de alterar esta sequência porque eu esqueci-me das rodas.

– Tudo bem… então quando entra esta parte da música são os balões e depois os apitos.

O excerto de diálogo no meio de dezenas de outros decorre atrás de um palco, homens protegidos do vento, com afinações de metais de orquestra. É de fogo de artifício e efeitos que falam o responsável da empresa contratada para efeitos de pirotecnia e um dos coordenadores da Queima e Rebentamento do Judas 2018 em Tondela , Pompeu José.

Antes, o arame amarra os corpos que se juntam às cabeças dos monstros que só a mitologia ou os contos populares conseguem imaginar. 

17H40, 11 graus e o sol que brincou com as previsões meteorológicas está a desaparecer. No mundo o último adeus a Stephen Hawking, a nova guerra fria da diplomacia entre a Rússia e a Europa que expulsa ou não expulsa diplomatas, as recriações da crucificação de Cristo, os muitos feridos na Faixa de Gaza e os que chegam e os que partem nessa coisa de nascer e morrer. No parque de estacionamento do Pavilhão Municipal de Tondela, já com as bancadas à espera de público, não se afina nem retoca nada… trabalha-se cantando, dançando, colando estruturas de vime, papel e o arame. “Trabalhar no arame não é para todos”, ri-se com quem arame e ferro se deita e levanta por estes dias. Mas a outra realidade está a tentar entrar nas cabeças de quem coordena um projecto cultural e artístico de várias dimensões, e o Judas e a sua Queima é apenas um de muitos exemplos: As propostas de apoio às artes e as formas de mostrar, a quem está encarregue de os distribuir justamente, o que deve caber em compromisso de Estado. Muitos voluntários amadores e muitos profissionais das artes de palco estão com os protestos de quem se quer concentrar para reclamar o direito a trabalho com dignidade mas, simultaneamente, fazem neste momento e até se deitarem, hoje sábado 31 de Março, aquilo que melhor sabem: um espectáculo de rua de enorme dimensão que há anos sucessivos se mantém e que se junta à comunidade para partilhar o Teatro como uma das artes supremas de liberdade de expressão.

23h30, em Tondela, há um Judas para queimar e rebentar e há, sobretudo, um tema central de que se não quer fugir em nome da comunidade (cá está ela) e de tudo o que ela representa.

Jeropiga ou vinho abafado, para quem está bem, cansado ou constipado. Há fatos-macaco ou jardineiras se não for a mesma coisa e frases do quotidiano que não têm nada de metafórico ou poético mas são arte do fazer: “Oh pá quem me ajuda a trazer aquela estrutura aqui para debaixo do toldo? ; Deixa secar agora bem por favor para pegarmos mais tarde; É preciso levar parte do boneco para o palco, está absolutamente ensopado; Para nós músicos é melhor que cena e tema acabem ao mesmo tempo; ai eu não me vou desmaquilhar depois do espectáculo!”. Frases tão banais e tão necessárias a um espectáculo que serve e devolve à população do concelho de Tondela, sobretudo esses, a paz com o fogo. Havia quem até há bem pouco tempo não conseguisse ver uma lareira acesa ou ainda se deitasse na cama para se levantar quatro e cinco vezes de noite fingindo dor de bexiga, mas para ir ver o gás.

O Rebentamento e Queima do Judas todos os anos representa o seu Escariote através de um animal… este ano é um monstro… o monstro do fogo. “É a vida e é a morte. oh besta ergue-te és sol”. Um carnaval, um musical tribal sem precedentes que vai exorcizar, aliás, já está a exorcizar os males e a espantar os monstros de fogo – desde os sentados nos seus escritórios aos poluentes e terroristas, aos incêndios de Manchester ontem, Venezuela anteontem ou Portugal…

O monstro de fogo é um fantasma que não precisa se ter carne e osso para ser real e que andará sempre nos nossos sótãos. Assim é em Tondela, uma das zonas mais afectadas pelos incêndios de Outubro de 2017 e que não foge à tradição pascal de Queima e Rebentamento do Judas… não por teimosia, mas por luta. Seria demasiado fácil circunscrever este fogo de Sábado de Aleluia às críticas mais locais, próprias dos textos e encenações que, maiores ou menores se representam pelo País. O teatro de operações é a arte inteira do teatro de rua – corpo e estrutura do Trigo Limpo Teatro ACERT – que decide enfrentar as consequências das chamas, cruzar todas as gerações dos 14 aos 104 anos e encarar de frente a desgraça que já na Pré-História se procurava e roubava e que acompanha a evolução humana, ou dos humanos, os mesmos que se tornaram peritos em reclamar o “TU” no que toca às acusações ou em usar indevidamente aquilo que era dos Deuses.

A Queima e Rebentamento do Judas 2018 em Tondela é, de facto, um resumo do mundo que descreve a actualidade e os conflitos políticos e apartidários, resultantes de uma série de acontecimentos que daí sucedem de boca em boca. Do local para o universal: Há guardiões, há raízes coreografadas, há continentes facilmente identificáveis representando o mundo e suas separações. No fim, a união. Existe o bem precioso e aquele que queima as casas.

Do seio do Trigo Limpo aos mais de 200 voluntários, que integram uma maioria de jovens entre os 14 e os 20 anos, grande parte sabe o que é ter o fogo à porta e a legitimidade para gritar contra um Judas que tem quatro cabeças como se fossem frentes a pegar. O caso da Mariana Cruz, de São Joaninho, concelho de Santa Comba Dão, que não esquece “uma noite horrível e a expressa e liberta agora” como uma das representantes da Oceania, parte da narrativa. O narrativa contempla continentes e dança do fogo entre eles… o ancestral e o que se faz com ele… a razoabilidade e o moralismo fora da caixa. Óbvio, o despertar de consciências do teatro.

Os voluntários, de várias latitudes, desde estagiários da ESMAE no Porto a escalabitanos como a nossa segunda Mariana, ou os estudantes em férias de vários localidades do distrito de Viseu, emergem aqueles que desde os 7 ou 8 anos de idade vêem os pais, tios e amigos participar no Judas, aguardando os 14 anos para poderem participar. E este é o ano de muitos e muitos deles. Como se já soubessem exactamente o que fazer, e uma dessas coisas é respeitar escrupulosamente o que os coordenadores, quer de movimento ou música, design ou montagem vão dizendo. Este é o ano de todos os anos em que se assume que o fogo vai continuar a existir por aqui… e não é só tragédia. Diz-se do Trigo Limpo: “Todos os Judas exorcizam alguma coisa, por que não exorcizar esta e ao mesmo tempo dizer que ele, o fogo, sempre teve a sua parte boa e continuará a ter? O fogo não pode ser tabu”.

Recuemos às 16h39 de uma Sexta–Feira Santa. Acaba o ensaio de um dos grupos que deixa o palco do auditório 1 do espaço Novo Ciclo Teatro ACERT para lanchar. Os manchas negras, que passaram as últimas horas a fazer torcidas – arame e papel que enrolado vai guiar o fogo por todo o boneco ou bonecos Judas – descem também ao bar ACERT. De visibilidade não terão tanta quanta as das caras maquilhadas e figurinos da frente de cena. São mesmo como o nome indica, os manchas negras, que por detrás, por entre e a todo o momento fazem com que tudo arda até à última centelha. E quedam-se como bombeiros e com os bombeiros para lá dos aplausos sobre os aplausos a verificarem as mesmas estruturas que montaram. Depois desmonta-se tudo, mas o rock n’ roll continua. Sem metáfora. É eléctrica e tem ondas de vertigem esta reunião de comunidade que começou numa qualquer reunião de direcção do Trigo Limpo e depois se estendeu ao tema e ao esqueleto, definidos com um guião que vai sendo construído…. um work in progress até às 23h30 deste sábado no Parque de Estacionamento do Pavilhão Municipal de Tondela, repita-se. A festa continua sempre até ser domingo de Páscoa e a cruz acordar alguém.

O sábado de Aleluia é diferente para a Ana que está de férias da Faculdade, para a Diana, para o Gonçalo que sempre sonhou como seria o boneco a arder atrás de si, para a Mariana – a terceira – de Vila Nova de Paiva que conheceu o Trigo Limpo como manipuladora do Pequeno Grande Polegar e não parou de participar – “representar o Judas é uma coisa, construí-lo ah é outra” – … ou para a Ricci ou até o vereador que vem às noites e goza a folga a trabalhar por aqui, onde sempre pertencerá. Lógico, não podemos esquecer o Rui e a Irene ou o Zé (nada disto é ficção) que tiram férias dos seus empregos de propósito para a semana de Judas. Para quem não sabe, e desculpem se não foi dito até agora, “semana do Judas” porque desde 25 de Março que se junta um monte de gente de todo o tamanho para depois se dividir em grupos de trabalho e oficinas. Atenção, quando um grupo acaba de ensaiar, por exemplo, vai ajudar na pintura do boneco e, quem está na pintura e concepção da estrutura, acompanha o que está a ser feito nos ensaios.

O fogo aquece a comida e aquece-nos mas também nos lixa. Se queimar o Judas lava a alma de um ano e se o fogo foi inevitavelmente o centro, então tinha esta alma de ser lavada assim, não há melhor forma”.

Muito Instagram… é a geração Instagram que está a provar no Judas de que matéria é feita e que não é só atrás de ecrãs ou emojis e fotos que se fazem e são feitos. São de terra, ar, água e fogo. Não há chuva nem frio que derrube a vontade que junta a fome com a vontade de comer… são mais de 200 então como já escrito os voluntários performers, os que lancham no bar e no átrio onde há sandes de queijo, fiambre, bolachas, fruta água e refrigerantes. São mais de 200 os que saem à meia noite do Novo Ciclo e regressam às nove e meia da manhã para ajudar a combater a ideia do fogo tabu, mas também a incerteza sobre o apoio às artes. Tem de ser dito com o tudo se diz em tempo de Judas. Como se combate essa incerteza e como se reclama essa injustiça? Na rua… neste caso este sábado às 23h30, de peito aberto ao fogo e de fogo no peito. Judas… sejas o que fores de onde fores que estatuto tiveres… vais rebentar!

fotografias de Márcio Ribafeita e texto de Nuno F. Santos … Cash…

Judas 2018 quase a chegar.

Judas, queima e rebentamento Tondela — 31 março 2018Trigo Limpo teatro ACERT

Publicado por ACERT Tondela em Terça-feira, 20 de Março de 2018