A Humanização pela Gota d’ Água

Artes Performativas

 

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água…


A canção original de Chico Buarque, «Gota d’Água», que serviu de tema principal da peça com o mesmo nome, escrita com Paulo Pontes, é um grito desesperadamente suave ao sofrimento que o amor causa. Mas, para lá da canção, o que tem esse amor que desde a Antiga Grécia, a partir da «Medeia» de Eurípides, obrigou uma mulher a matar os filhos para se vingar, para causar dor maior a Jasão que a preteriu por Alma, a filha do rei Creonte para se casar? Quantos anos, quantos séculos passaram desta tragédia grega para que se agigante o amor? Ele tem doçura e veneno… agridoce intenso, como uma canção de Chico Buarque, sirva o exemplo, contaminando toda a peça, adaptada à realidade de um país imenso com  injustiça social imensa, servindo para abanar a ditadura do Brasil dos anos 70. Já neste século, o também brasileiro Heron Coelho trouxe de novo a palco em forma de arena, tal qual na Antiga Grécia, «Breviário Gota d’Água». Ora, é a partir dela que chegamos a Portugal, a um bairro do grande Porto,  14 anos depois do virar de século para encontrar, a centímetros de nós, a tal mulher dez anos mais velha que Jasão, tentando a cada dia que passa expurgar a dor, exorcizá-la, passá-la a outros.

Jasão e Medeia reencontram-se muitas vidas depois, ela sob o nome de Joana, dirigida por Luísa Pinto num condomínio onde parece que em cimento de cego quem tem olho é rei. Creonte. Rei de um bairro que já não é de lata porém com dívidas; rei de um povo chantageado pela Lei que não está a seu lado. Não se fala directamente dos bancos, mas fala-se dos juros e das taxas. Não se fala directamente da Responsabilidade Social das empresas, que ao mesmo tempo despejam, mas fala-se da astúcia em fazê-lo e na ameaça. O jardim de infância e a pintura nova, o aparente perdão em que o povo se vê refém. Nas tragédias gregas, sendo elas mais ou menos fiéis às originais, temos sempre dificuldade em apontar quem é inocente ou culpado. Haverá com certeza os que, mesmo guiados pela voz do bom senso de Mestre Egeu (João Melo) vejam em Creonte, de tão real rei que mete medo, de tão real rei que somos pobres todos… vejam simplesmente a Lei. Ponto! Ele empresta, ele arrenda, ele tem de receber e, afinal de contas, quer que a sua filha case bem também.

<TKNT>Luísa Pinto, na tua opinião há um culpado e um inocente… assim claramente?

<Luísa Pinto>Na minha perspectiva… acho que não. Como observadora obviamente culpo aquela mulher que mata os filhos, só que eu conheço a história toda até ela cometer aquela loucura. Há uma série de culpados. Ela é uma mulher ofendida, humilhada. Esta Medeia não mata por despeito, ela mata por ser perseguida e ostracizada. Ela pode ser culpada e, por sua vez, há alguém que a torna naquela mulher. Há um rapaz que ela fez homem que a abandona, deitando-a numa espécie de lixo. E há ainda outro culpado que é a voz da injustiça, embora ela não tenha necessariamente de cobrar a dor que lhe é infligida dessa forma. Sabes, eu acho que não sabermos claramente quem são os culpados é que faz perdurar este texto há 2500 anos! Não há uma conclusão, mas não consigo culpar aquela mulher da uma grande dor de inconsciência. Aliás, quando ela mata os filhos por vingança, tem também uma grande inocência. Aliás, ela diz a certa altura para os filhos: “é melhor que fiquem assim, nessa inocência cristalizada”. Ela acredita nisso. Ela acha que é melhor eles ficarem nessa tal inocência cristalizada do que serem criados ao Deus Dará. É uma dualidade de sentimentos enorme. Toda a gente consegue analisar mas ninguém consegue concluir.

breviario

O Teatro não é só o transportar de realidades. O teatro é assustador: Creonte (Paulo Calatré) está ali mesmo, a um metro metro e meio de nós, ou então tão colado que lhe sentimos o bafo – depende apenas da palete em que assistirmos – e temos tanto medo que quando nos manda comer um caldo verde e fazer um chichi não ficamos sentados. Não… sabemos exactamente do que se trata! As personas não saem dos actores e servem caldo verde que vai sendo cozinhado durante o espectáculo. As vizinhas de Joana fazem o nosso caldo português numa tragédia grega.

<TKNT>Queres explicar o cenário… com paletes de madeira transformadas em sofá e o intervalo? Aquele caldo verde é mais do que caldo verde?  É de alguma forma o suavizar da tragédia ou é outra coisa qualquer?

<LP>São as duas  coisas! O cenário não poderia ser com cadeiras normais. O público está sentado no cenário, literalmente. Queria mesmo trazer o público para a peça, que ele seja parte integrante da peça. Os discursos de Creonte podiam ter sido escritos hoje. Todos nós estamos a ver e ouvir falar ao vivo aqueles senhores que ditam as leis e as regras e nisso… nisso há um desconforto enorme. Assistimos a um julgamento em arena e o caldo verde acaba por ser o símbolo da comunhão daquele veneno que paira no ar, em analogia com o que Joana prepara no final. É o veneno instalado na sociedade pela desigualdade fomentada na arrogância do Poder. Gostava que todos comungassem dessa refeição cozinhada na primeira parte da peça, onde se desvenda a forma como a Medeia Joana se vai vingar . É um intervalo encenado. Este texto é um choque no estômago reconfortado por um caldo verde. Transposto do Brasil para o Norte de Portugal tinha de ter um prato português. O caldo verde é simultaneamente pobre e sinal de festa, arraiais, santos populares. Tem muito a ver com essa arena e, portanto,  não poderia ser outra sopa qualquer. Mas reconforta imenso, servido quentinho depois de socos no estômago.

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Voltamos à força do amor. Tantos séculos depois é assustadora para o bem e para o mal. Os sentimentos não mudam com os anos. Nenhum: do amor à raiva, da injustiça à traição, da vingança à desilusão.

<TKNT>E dos anos setenta para cá, como ficou a condição da Mulher?

<LP>Desde os anos setenta mudou, não mudou tanto quanto gostaria. Podemos dizer o que nos apetece, já existem algumas mulheres em alguns cargos de chefia, mas ainda há um longo caminho a percorrer. A penalização da gravidez no trabalho, a violência doméstica…. mesmo no teatro: Quantas mulheres dirigem um Teatro Nacional ou Municipal? O grande poder económico mostra que continuam a ser os homens a ter o domínio. Até no Parlamento tem que ser dois dois uma! Claro que a condição mudou, mas não chega.

Se Joana por Bibi Ferreira era uma feiticeira carregada, cruzada entre a Medeia original e a mulher desiludida capaz de fazer o melhor candomblé, a Joana de Inês Mariana Moitas, neste Breviário Gota d’Água encenado por Luísa Pinto, é a mulher que tantos anos depois continua a ter pouca gente que a defenda e de amor… sofre mais. Notamos nela mais sofrimento que desejo de vingança real mas sim… tem um fim fatal.

<TKNT>É mais sofredora esta Joana? Achas que, de alguma forma, se poderá notar que há mais mágoa que raiva, mesmo com bruxaria que não deixa de fazer?

<LP>Não… não.  Esta Joana é igual. Ela tem uma mágoa enorme claro. Mas também raiva depois de tudo o que lhe acontece. Na balança mágoa e raiva têm o mesmo peso. É que vai para lá do facto de ser trocada por outra mulher. Ela é olhada de lado por ser mais velha. Nunca, na plenitude, ela tem uma relação normal…

Nem todas as mulheres são medeias nem todos os homens são Jasão (João Costa), que vive de talento musical e até já foi à televisão. O que mudou não sabemos. Não sabemos se foi o seu coração ou o seu tesão, mas certo é que ele abdicou da intensidade e do fogo sem paz com Joana, a Medeia de Breviário, para escolher Alma, sinónimo de tranquilidade, mesmo com um pai devorador de almas como Creonte. Relembremos então que Joana é mais velha, dez anos mais velha.

Joana ainda é a culpada nos nossos dias. Quando a virmos apenas como traída estaremos de melhor consciência, sabendo sempre que nada justifica o fim de um filho, nem de dois. Não há nada disso depois, nem a Primavera de que ela fala. Mete pena sim quando chora. Muita.

<TKNT>Mas reparamos mais nisso, nessa mulher que mata os filhos ou achamos que Jasão, independentemente das razões de abandono é,  por entre charme de músico e palavras do povo, um agressor?

<LP>Agressor? Não. Ele  é um fraco! Sim, os agressores são uns fracos. Mas ele é mais fraco do que agressor, por si só. Não nos podemos esquecer que Joana é muito forte.  Ao contrário do que muitos pensam não são as fracas que cometem as loucuras, são as fortes. Recorro aqui à Mulher enquanto pesquisa para recordar que na mitologia as deusas eram mulheres. Só quando o Homem percebeu a força que a Mulher tinha, sangrando todos os meses parindo milagres ele sentiu a necessidade de se transformar naquele senhor todo poderoso que esta Medeia nos traz. Por medo! Joana é muito o espelho do medo desses homens, dos homens que continuam com medo das mulheres. Creonte quer que Joana se vá embora porque tem medo dela.  

<TKNT> Embora teatralizado, Jasão chega a dar um estalo em Joana…

<LP> Ainda assim, ele é mais agressor do ponto de vista psicológico, o que é violentíssimo mas, no caso específico não deixa de ser um fraco. Ele nunca bateria noutra mulher, na peça é a forma  baixa e ignorante de reagir. Ele admitiria palavras tão fortes de qualquer outra mulher, mas não as consegue aguentar da mulher que o fez homem e porque ele carrega a culpa há muito.

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<TKNT>Socialmente, e até pela forma como acaba a peça antes da festa, numa notícia de jornal igual a tantas outras, tem de haver discussão depois da tragédia?

<LP>Há sempre! Em todas as sessões as pessoas ficavam sempre no final e reflectimos em conjunto. Das reacções mais interessantes foi a de três advogadas e uma juíza que assistiram e que diziam no final exactamente isto: “não quero mais Tribunal de Família. É muito complicado julgar quando só se conhecem os factos muito bem tralhados pela Defesa”. É o que falávamos no início: os juízes dificilmente têm acesso a todas as circunstâncias. Estas profissionais e espectadoras de teatro  retiveram pela primeira vez uma base diferente sobre um crime. «Breviário Gota d’Água» também serviu, serve e servirá para humanizar muitas pessoas e para humanizar alguns técnicos que tratam estas questões sociais. Há uma humanização muito grande neste texto.

Tem de ser perturbador, mesmo com vinho e caldo verde à mistura, mesmo com o tom festivo de esperança na música adaptada em pequenos pormenores de texto e letras. É perturbador porque o teatro pode ser aquela coisa muito cómoda de nos comover lá do palco, mas também essa coisa onde temos de levantar os pés para os actores passarem, e onde temos de ficar de quedo enquanto a própria Joana… a própria Medeia com o ventre esmagado de dor se chora nos nossos joelhos. Somos povo ou somos a Lei? Estamos na peça, não somos público e a qualquer momento espera-se que algum de nós se levante e tome partido em favor de alguém.

Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor…

nota: uma perspectiva de artigo que pode ler e que inclui também a parte da adaptação musical e de texto

nota 2: Almada, Teatro Municipal Joaquim Benite – Avenida Professor Egas Moniz
14-11. Sexta às 21h30 (na Sala Principal).
10€ (sujeito a desconto) 212739360

Reposição no Teatro Constantino Nery, em Matosinhos, de 10 a 15 de Fevereiro

<Texto>Nuno F. Sant0s
<Fotos>D.R.

Ficha Técnica
Encenação: Luísa Pinto
Actor(es): Inês Mariana Moitas, João Costa, Paulo Calatré, João Melo, Isabel Carvalho, Isabel Cruz, Catarina Santos, Sofia Príncipe, Rui David, Nicolas Tricot
Cenografia: Luísa Pinto
Direcção musical: Carlos Tê
Adaptação: Heron Coelho
Desenho de luz: Bruno Santos
Figurinos: Luísa Pinto