«Ficheiros Secretos» com Visões Úteis… no TeCA

Artes Performativas

 

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Facto: Tartaruga de 17 metros encontrada na parte boliviana do Amazonas. Facto: Lady Gaga consegue voar. Facto: Os anteriores factos não têm nada a ver e, simultaneamente, têm tudo a ver com o espectáculo «Ficheiros Secretos» que o Visões Úteis estreia no Teatro Carlos Alberto. Hipótese A: O sujeito espectador vai aprender muito sobre coincidências. Hipótese B: A  presença do sujeito espectador é, de facto, relevante. Facto: Não será incomodado por nenhum momento. O que não quer dizer que estes “Ficheiros” não mexam consigo.

Cerca de quarenta lugares devidamente separados entre si. Tão… mas tão devidamente que, se acompanhado, a distância que separa a pessoa ou as pessoas que forem consigo ao TeCA – Para ver o espectáculo «Ficheiros Secretos» – é a mesma que o separa dos outros espectadores. Na mais recente criação do Visões Úteis vai estar entregue a si mesmo com três cientistas (analistas, mas nós teimosamente vamos chamar-lhes cientistas) falsamente rigorosos na sua frente, que respiram por ter pulmões e necessitam do mesmo oxigénio que nós. Não tenha medo, eles são estranhos não se aproximam. Pensam ser cientistas de uma grande organização com imenso poder, e são, mas às tantas vai ver que eles são é ratos de laboratório. Pergunta: não somos todos?

Convosco, e ao longo de cerca de hora e meia, antes de mais, estará um elenco de actores que não vos vai pedir qualquer tipo de interactividade com o espectáculo, que não o vai abordar pessoalmente e que vai sim, através da arma mais eficaz de todas, “o humor”, falar-vos de coisas muito sérias. Mais uns a falar de coisas sérias? Não… aqui é bem diferente e, se de alguma forma puder confiar neste texto, asseguramos a diferença e asseguramos que contemporâneo mais contemporâneo não há. Brincamos com slogans conhecidos e até estaríamos tentados a brincar com “branco mais branco não há” – com os devidos direitos de autor à publicidade da marca Tide – não fosse o caso de o Visões Úteis fazer precisamente o contrário: não branqueia só porque é deprimente ou só porque já faz parte do seu dia-a-dia, quer nos blocos noticiosos televisivos ou nas manchetes dos jornais. O Visões mostra-lhe esses factos, usando uma característica que só os humanos têm quando comparados com máquinas: a ironia. Se não fosse a ironia como é que alguns dos ficheiros F7 88 / 13 lhe pareceriam ridículos, embora verdadeiros, apresentados num ambiente de sala da série que mais gosta na televisão… qual? Ora que pergunta… CSI? Lost? Ah, desculpe, não vê televisão?! Desculpe.

Facto: Leitor não vê televisão.

Hipótese A: O leitor não é influenciado pela sociedade espectáculo;
Hipótese B: O leitor sabe tudo o que se passa na sociedade e não precisa de televisão para tal;
Hipótese C: O leitor sabe minimamente o que se passa. Até vê televisão, mas não depende dela para estar informado. Mais. Não quer saber muito mais, sente que lhe faz mal.
Hipótese D: Nenhuma destas hipóteses se aplica.

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“Somos pessoas predispostas para o humor. Para o espectáculo trazemos factos publicados em várias plataformas, só que esses factos ou esses estudos que todos os dias apresentam conclusões não são enquadrados em qualquer contexto. Se conseguirmos que o público… e que nós próprios… sejamos, todos, capazes de rir perante factos que são um absurdo é muito melhor. E é muito melhor porque as pessoas ficam a pensar nas coisas sem que tenham de sentir um peso horrível”. Ana Vitorino, do Visões Úteis, refere assim uma das premissas de «Ficheiros Secretos» e do processo de trabalho que envolve a escrita da peça e da encenação.

«Ficheiros Secretos» vai desafiá-lo. É certo. E também o vai alertar. Por exemplo: pense na sua palavra passe para… para aquilo que precise. Nunca é aleatória pois não? “A sua palavra passe já foi escolhida”. Calma lá! Será que já alguma vez pensou: “O ser humano que me estava destinado já foi escolhido”. Como esta pode ter muitas outras reflexões enquanto é confrontado com factos, campainhas, sons, literatura clássica, espionagem e zombies. Confuso? Perante a última frase talvez seja, mas no espectáculo é tudo bastante claro. Se alguma coisa estes três cientistas, a voz off que ouvimos e a figura de chapéu de côco ao fundo nos dão sem… sem nos pôr a pensar, é mesmo esse encadeamento perfeito das histórias que contam e das conclusões com que nos confrontam.  Sossegados. Entrem, sentem-se e deixem-se levar.

P.S. Facto: Fui contagiado no decorrer da peça por uma série de orgasmos em rede. Esta informação não dispensa a visualização da peça sob pena de que o caro leitor pense coisas erradas.

<texto>Nuno F. Santos
<Foto>João Tuna


Ficha Técnica

Texto e Direcção: Ana Vitorino, Carlos Costa
Cenografia e figurinos: Inês de Carvalho
Banda sonora original e Sonoplastia: João Martins
Desenho de luz: José Carlos Coelho
Cocriação: Pedro Carreira
Colaboração na pesquisa: Ana Carvalho, Ricardo Lafuente/Manufactura Independente
Interpretação: Ana Vitorino, Carlos Costa, Pedro Carreira e ainda João Martins
Voz-Off; Arsélio Martins
Duração aproximada 1:40; M/16 anos

Local: Teatro Carlos Alberto (Porto)
Data: 14 a 24 de Novembro
Horário: 4ª a sábado às 21h30 / domingo às 16h