Festival de Teatro Cómico da Maia XXI: Sorrir da Cinta para Cima

Artes Performativas

 

Boca de Cão às 21h00. Exterior do Fórum da Maia. Sorria: está no Festival de Teatro Cómico da Maia. Um trocadilho demasiado óbvio mas adequado. Sorria. Ainda que não haja motivos muitas vezes para sorrir e ainda que o director artístico deste festival seja um homem do Teatro da Palavra… sorria. Não tem nada a ver uma coisa com a outra… a relação das coisas, oh, então botem-lhe o rótulo non sense! E não tenha medo de sorrir e de rir à gargalhada no Teatro. Alto! Não sorria por obrigação. Ora ora. Nem por estar na Maia nem por estar num festival de Teatro Cómico. Sorria se lhe apetecer, porque também se lhe apetecer espernear enquanto à volta tudo se ri pode… pode fazer o que quiser porque o Teatro é um desses redutos de liberdade e foi sempre uma das formas de a garantir. Parece utopia cansada não é? Mas assim é! O tal director artístico, de sorriso e murros no estômago lembra-se bem do teatro como forma de contrariar a ditadura e como forma de grito ao que estava mal. Ele… desculpem… senhoras e senhoras meninos e meninas José Leitão! José Leitão adora Eduardo Galeano e fala, se preciso for, a qualquer hora sobre as Noites dele.

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D.R.

Faltam quatro dias a partir de publicação deste texto para o acabar mais um Festival de Teatro Cómico da Maia, mas devem faltar poucos dias para mais uma apresentação de uma das muitas peças em cena do Teatro Art’Imagem. Começará a contagem decrescente (esse termo maravilhoso)  para uma edição – assim o esperemos – de um Outro Fazer a Festa que traga com ele mais palhaços pois que os palhaços estão a desaparecer. Mas existem. Não estão extintos. Falem com a Luísa Moreira do Circo Girandum, falem com os responsáveis de encontros de palhaços, falem com a d’Orfeu, com a ACERT, com a Fértil se preciso for e até, claro, com José Leitão que viaja de festival em festival, negociando directamente com outros directores artísticos espectáculos que agora se apresentam na Maia.
«Boca de Cão» hoje, não esqueçamos. “Espectáculo em viagem, onde o público se poderá se surpreender com diferentes histórias, e se assim o entender, também se juntar à descoberta de outras ilusões contadas, dentro e fora da carroça“. Para maiores de seis anos, leve um casaco que as noites arrefecem mas não se renda à seriedade. Se já passou o feriado, espreite aqui a programação porque há bem mais para ver.

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D.R. José Leitão

José Leitão: “Parece que ainda é proibido rir no teatro em Portugal. As companhias mais apoiadas não gostam muito de trabalhar Teatro cómico… opinião minha, embora reconheça que estejam diferentes”. Diz-se isto aproveitando o encalço: “bem.. os jornais não falam de Teatro, nem do cómico nem do sério”. E agora a exigência de riso deste festival, lembrando mais ou menos o que dizia Jorge de Sena: “o riso é subversivo, é a inteligência o que nos interessa. Queremos riso da cinta para cima e não da cinta para baixo”.

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Ai os porcos…

Números: Este ano sã0 21 companhias. 13 estrangeiras e 8 portuguesas. “Tentámos trazer companhias que sejam as mais difíceis de ver. A linguagem da não palavra – recorde-se ainda assim que José Leitão é da palavra – é a mais adequada e transversal para os públicos, evitado as legendas no Teatro e um orçamento seguramente maior”. Mais números: “Faz-se este festival que normalmente custaria 300 mil euros por 130 mil euros. Um milagre não é? Tem menos companhias portuguesas do que gostaríamos, é um facto, mas é complicado porque Outubro é um mês de começo de uma nova época de espectáculos, de actores que trabalham em várias companhias e, certamente, não esquecemos que durante um ano é mais fácil andar 70 quilómetros para ver uma peça do que ter de ir à Nova Zelândia ver a mesma”. 

Com a palhaça Spirulina Silvia Leblon, falamos de vários cantos do mundo e liberdade mas com Pozzo… bem… Pozzo e o regresso que Rui Paixão nos traz, depois Lullaby, agora uma performance estranhamente surreal. Um intérprete que se desdobra em diferentes personagens, privilegiando a investigação sobre o clown contemporâneo e o trabalho de máscara, além da música tocada ao vivo. A obsessão de Pozzo em comer porcos trouxe a extinção da espécie e como consequência a fome... essa miséria que lá anda.

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DR Horizonte de Cena …. “Fardo”

Andar andar andam também no Festival de Teatro Cómico da Maia duas ou três pessoas de longe do Porto – às vezes o distrito do Porto parece ainda longe de tudo – que pedem férias precisamente para esta época para não perder nenhum espectáculo. Longe de tudo dizia o texto? Sim, nunca tínhamos pensado neste exemplo de José Leitão por mais que a política mude até positivamente olhando a Cultura: “São sempre seis horas de comboio para falar com o secretário de Estado da Cultura ou com o Ministro”. Verdade. E de que servem essas reuniões? Com certeza alguma delas desse uma comédia, oh isso seria excelente. Mas a comédia de José Leitão, by himself, vem aí em breve e vai tocar o Porto, um Porto diferente (by himself não é o nome da peça é apenas um armanço ao pingarelho do que escreve). Vai tocar a memória. Uma peça biográfica em trilogia: o País da ditadura, os anos de chumbo e o empobrecimento. Bem.. não é cómico mas tem muita ironia. José Leitão resiste, está “muito chateado com quem gere os gostos na cidade do Porto”- e isto seria um título se a TKNT fosse ao sangue do jornalismo – não vai desistir de lutar pelo regresso que considera digno dos festivais do Art’Imagem e da programação cultural. Amargamente, sim… é de pesar que falamos, José Leitão fala de injustiça para quem – como outros – aguentou o período de nojo do Porto, culturalmente falando, na época do vazio… e depois sentiu-se esquecido. E quem ler como nós também lemos evidentemente pensará: que aborrecimento, já não há paciência para tanto queixume! E entre aquilo que será justo ou injusto, verdade ou não, a confissão do homem de palco com 71 anos: “Penso que às vezes seria bom que conseguíssemos deixar de resistir… para sermos vencedores. Se formos ao Google e escreveremos Art’Imagem só vemos as guerras políticas na cidade. Talvez a culpa seja minha. Talvez eu não tenha sabido passar outras coisas como a formação de públicos para que a o Ar’imagem fosse estudado. Claro que me sinto chato ao falar de mudança, mas temos espectáculos em cena que nunca têm menos de 40 representações… claro que me sinto chato mas olho para dentro e para as nossas 106 pecas… enfim.

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D.R.

Isto era para ser uma comédia…. e é! Da cintura ou cinta para cima. Abram alas para a Peripécia e as palhaças lindas, para a desgraça que faz rir, a dos outros com a nossa à mistura e para… para a Manteiga Voadora! Isso mesmo… Mantega Voadora a um Domingo com malabarismo malabarismo e malabarismo. Malabarismo é tudo quanto conseguiremos fazer se não ganharmos cem euros a bater punho ou vender pipocas.

<Texto mal acabado e sem humor por Nuno F. Santos>