Eis a Viagem do Circo Girandum e sua Tenda

Artes Performativas

 

Poderia dizer que a TKNT esteve com a Luísa Moreira num quarto em Vila do Conde há dezenas de anos a ver o nascimento de uma companhia ligada ao circo. Poderia porque eu também sou a TKNT, mas seria como anunciar um número de um animal enjaulado e porque é batota, não conta. A TKNT só existe desde que me lembrei dela com a vossa ajuda portanto… chega de publicidade neste texto/entrevista. O que acontece é simples. Resumo pois: Estava a falar no Facebook com a Luísa sobre curtas metragens, vida e suas dificuldades, dias literários contra os dias pseudo-artísticos e, de repente, o habitual mas sincero “como estás?”. A Luísa responde “estou muito bem, vou comprar um circo… ou melhor, vou ter um circo!”. Claro que não é o tipo de coisa que se ouve todos os dias e percebes que a pessoa que está do outro lado e que até conheces… ou ensandeceu ou não tem medo de nada, nem de não ter leões e domadores.

Esta é a tentativa de uma entrevista áudio interrompida por uma filha a querer lavar uma maçã, uma tia com uma sopa, uma banda sonora num falso directo à maneira da rádio com Yann Tiersen…. sim sim… ao jeito da maioria para “pintar” de música quase tudo o que tenha a ver com circo. Afinal não somos assim tão diferentes. E assumir que correu mal a ideia. Mal se ouvia a nossa conversa telefónica, a música estava demasiado alta e já só dava Amélie Poulain por todo o lado. Vamos por isso às palavras sendo de referir que a meio da conversa foi pedido à Luísa Moreira que desse uma alternativa (ainda se pensava na fórmula áudio) ao Tiersen. A alternativa é Bach… e, assim sendo, imaginem metade da entrevista com Bach. A segunda metade.

luisa moreira

luísa moreira… roubada ao seu facebook

TKNT: Luísa… foi ou não foi assim: “Então e como estás?”… e tu respondeste “eu vou ter um circo”. (A Luísa, talvez inicialmente com receio do falso directo, abranda e responde com algum cuidado…”)
Luísa Moreira: Sim é verdade mas… é mais o início de um projecto que vai demorar a estar consolidado. Contudo, o passo é de gigante (aposto que haverá gigantes neste circo) e que é o de adquirir a tenda de circo para fazer um Circo Contemporâneo, Novo Circo, com uma rota de circulação anual de um espectáculo. Faltava isso em Portugal.

TKNT: Como é que descobriste a tenda que querias e, já agora que era este o momento?
LM: Já há muitos anos que tinha a ambição de ter uma tenda de circo e dinamizá-la. O Novo Circo é actualmente forte em quase toda a Europa, nomeadamente em França onde sempre fui estando atenta, e acabou por ser precisamente a um grupo francês que comprei a tenda. Eles passaram para um recinto maior e eu identifiquei-a. Lá estava: ideal para começar… nem demasiado grande nem demasiado pequena…

TKNT: Quantos…
LM: 20 metros de diâmetro e capacidade para 500 pessoas de pé 300 sentadas…

TKNT: O.K.. Não é tão pequena quanto isso…
LM: Permite a montagem de uma bancada e a montagem de Café Concerto para espectáculos de Cabaret. Essa é uma área que tenho interesse em associar ao Circo Girandum. A comédia, o burlesco… disciplinas que têm uma linguagem multidisciplinar e de uma outra percepção da parte do espectador.

giramdum

a famosa tenda

TKNT: Vens do Teatro…
LM: A minha formação é de produtora na área do Teatro, mas as Artes de Rua a as artes do Circo foram o meu enfoque. No entanto nunca tinha tido a experiência total de um circo sem animais e que pode ser feita com artistas portugueses… circulando.

TKNT: Desculpa a pergunta, idiota com certeza até para os artistas, mas para o que pretendes fazer achas que existe capital artístico em Portugal?
LM: Actualmente sim. Foi um caminho longo. Havia uma tradição que faltava para poder fazer trapézio e malabares de forma teatralizada. Faltava uma escola para fazer isso… esse caminho. Neste momento, e porque o espaço europeu é relativamente permeável a que jovens portugueses estudem no estrangeiro e que se formassem no Chapitô, há já uma leva de artistas com que contar e para fazer um progredir um espectáculo.

TKNT: Do pouco conhecimento que tenho e, para lá de números que saem de artistas do Chapitô, vêm-me à cabeça os nomes das companhias ou grupos Erva Daninha ou Radar 360. São estruturas que se podem cruzar com Girandum… apenas a título de exemplo?
LM: Sim, temos espaço para acolher outros espectáculos, tal como o Festival Vaudeville nos acolhe para o baptismo de hoje da tenda e circo Girandum! Ou seja, estamos abertos a parcerias com estruturas culturais, câmaras municipais etc. Quanto mais conseguirmos colocar a tenda em movimento mais o circo tem capacidade para crescer.

TKNT: Achas que, de alguma forma acabará também para colmatar a falta de espaços para grupos de artes circenses que pretendam trabalhar ou…
LM: Não imagino a possibilidade de que o Girandum  tenha a vocação principal de programação externa mas sim… sim existe espaço para fazer algumas parcerias com companhias de Novo Circo que circulam por aí e é possível fazerem-no dentro de uma tenda de circo.

TKNT: Como se fosse sob a banda sonora do trompete… aquela conhecida e sempre associada ao circo tradicional… queres apresentar o Girandum…
LM: Os programadores de festivais e as câmaras são os nossos interlocutores privilegiados para levar este circo sem animais os sítios e a todos os lugares possíveis. Mas é tanto mais fácil irmos a um determinado sitio quantas mais pontes estabelecermos. Importante: Ainda estamos na construção de um calendário 2016/17, portanto existe ainda a disponibilidade total para criar uma experiência nova nesses locais. Cidades ou vilas que vão ter não só um espectáculo como vão poder conviver com uma coisa única que passa por toda a montagem. No fundo um processo que é diferente e que se diferencia do quotidiano, sobretudo deste quotidiano que anda tão negro. A itinerância está ligada a um período de antecedência suficiente para as coisas correrem bem. A apresentação pública da renda é hoje (Domingo, 19 de Julho), às 19h30 no Parque da Juventude ,em Famalicão. O Circo Girandum é simultaneamente um recinto e um projecto de companhia, como aliás o Cirque du Soleil começou por ser.

girandum 2

a montagem de um circo é…

TKNT: Falamos de Novo Circo e falas do Cirque du Soleil e lembro-me do João Paulo Santos, que tinha o sonho de trabalhar no Cirque de Soleil, precisamente, mas acabou por ter a sua própria companhia em França e está, diz, para lá disso. É alguém com quem o Girandum se possa cruzar também?
LM: O João Paulo Santos é extremamente interessante, mesmo! E também acaba por ser, talvez, o português que levou mais longe essa vontade do Novo Circo feita por artistas que emigraram. Será absolutamente natural que nos venhamos a cruzar. Ou seja: É uma possibilidade muito concreta, já que as pessoas que realmente se interessam por fazer do Circo a sua vida são uma comunidade que se conhece e reconhece. O João Paulo é uma possibilidade para programação, também porque o Mastro Chinês com que trabalha o João Paulo dá origem a muitos espectáculos. No fundo… (e aqui o discurso já é o mais presente quase sem filtros)… no fundo tudo é possível. Se estou expectante? Claro! É uma prática diferente de tudo o que estamos habituados. Ter um circo sem animais é fundamental e já existe até uma parta de opinião pública em Portugal formada e informada sobre isso. Mas sei que não é fácil, sei que terá dificuldades. Se tudo em Portugal tem dificuldades por que é que um circo não as há-de ter?!

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imagem exemplo de um espectáculo Novo Circo

TKNT: Falas de forma recorrente de um circo sem animais e na minha cabeça, por exemplo, é natural mas… mas se me lembrar bem não é assim pois não?
LM: Há diferentes tipos de púbicos, claro. O circo de tradição familiar com animais ainda cumpre em Portugal a maior parte da oferta. Mas, felizmente, e por outro lado – a par da questão de não ter animais – já não há aquele tanto aquele arquétipo do apresentador que enumera a sequência de números. Não existe a fragmentação para cada número. Tenho a consciência de que nunca se inventa nada em absoluto nem nunca se deita fora tudo o que é antigo. Não é possível fazer hoje a mesma Pintura, Cinema e Circo do que há cem anos. Mas as coisas também não perdem assim o seu património. Falavas há pouco da música inicial ligada ao circo – essa espécie de senhoras e senhores meninos e meninas – e, de facto, não nego por completo o músico de sopro no circo, como não nego a presença de uma guitarra eléctrica enquanto alguém salta trampolim. O que acontece é que em vez dessa fragmentação de vários números de um circo, este… o Girandum, à boa maneira do Novo Circo, tem o sentido de Obra Total e não um conjunto de números diferentes que não se encaixam e daí precisarem do apresentador. Precisamos sim das ferramentas como noutros países.

 

Numa das perguntas entrava-se numa questão mais pessoal que também está ligada ao nascimento deste circo absolutamente pioneiro no País. Mesmo sendo o Girandum uma extensão de Luísa Moreira, acordámos os dois por não a colocar nesta pequena entrevista deixando até este novo circo com uma nova vida, essa é uma certeza, e com o mistério próprio de um circo que nunca deixa de ter magia por mais que mude. E muda para melhor. Mas… fica uma frase do que seria essa resposta para terminar

LM: “Coincidências… o Circo só se faz nesta vida e é para fazer sem medo!”

Nuno F. Santos no trapézio da rádio pirata que deu em texto online