Contra as Trevas… Voltar a Espernear

Artes Performativas

 

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Não é branco, o elefante do Trigo Limpo Teatro Acert. É cor de palha e atrai todo o tipo de público acidental. Muito antes da hora do início do espectáculo, já a Praça do Município, em Lisboa, está cheia. Esta é a última paragem lusa, em 2013, duma digressão que começou em Junho em Figueira de Castelo de Rodrigo para recriar o percurso da viagem de Salomão, o elefante oferecido por D. João III ao arquiduque da Áustria, entre Lisboa e Valladolid, em Espanha. José Saramago ouviu a história num café e resolveu contá-la em livro e a companhia de teatro de Tondela lançou-se na empreitada de transformar o conto numa peça de rua.

“Este é um espectáculo de resistência”, diz-nos José Rui Martins, director artístico da companhia. “Quando pensámos nele, tínhamos duas alternativas: ou rebentávamos sob o ponto de vista económico, ou então íamos de cabeça contra a parede. Numa altura de crise, se se pensar pequenino não vamos lá. Este espectáculo é uma forma de espernear perante a crise.” O Trigo Limpo decidiu então pensar em grande e, surpresa, não encontrou paredes, mas sim portas abertas: “as câmaras municipais que fazem parte do caminho percorrido por Salomão estavam sôfregas para que um espectáculo desta natureza marcasse a vida cultural da sua localidade.” E, acrescenta, “verificámos que quando partilhamos os nossos sonhos, eles não são tão íntimos como pensávamos.” Parte do segredo da recepção entusiasta desta peça está, precisamente, nessa partilha: “o Trigo Limpo integra os actores locais, não é a cultura que vem de fora e que se instala depois nas localidades, o que resulta num espectáculo que reflecte essa própria comunidade.”

Em Lisboa, o imponente Salomão arranca de casa uma comunidade ecléctica. Vêem-se avós e netos, intelectuais em esclarecidos duelos saramaguianos e gente que nem sequer sabe bem ao que vai. “Isto deve ser do Camões, porque me parece que o vi passar ali atrás”, atira uma amiga de meia-idade para outra. Uma turista oriental mostra-se desiludida quando percebe o que vai acontecer. É que ao ver aqueles portugueses ali todos juntos, pensou que se ia cantar o fado. Mas acaba por ficar e grava tudo no seu ipad mini. Quando o teatro sai à rua, acontecem coisas extraordinárias, como esta vitória esmagadora das artes de palco sobre o futebol: “estamos a ganhar dois a um”, agita-se um espectador ansioso, ainda incapaz de perceber se foi boa ideia deixar o seu clube ao abandono no pequeno ecrã. Ao longo do espectáculo, o público mais céptico há-de render-se, como é o caso das duas amigas que não param de resmungar. “Espero bem que comecem a horas”, diz uma. “Vamos ver um bocado e depois logo se vê se atinamos”, diz a outra. Atinam. Ficam. Querem saber se a tromba do elefante mexe ou não.

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O espectáculo começa com música, o que é suficiente para calar o burburinho sem necessidade de recorrer a avisos pré-gravados. Junto ao edifício dos Paços do Concelho, nove músicos tocam e cantam ao vivo, conduzindo-nos assim pelos vários ambientes e terras percorridas pelo texto. Tal como no livro de Saramago, ateu convicto, fica absolutamente claro o clima de suprema religiosidade e superstição que atravessava a Corte e o País em pleno Renascimento. No conto, a rainha, Catarina de Áustria, interrompe uma oração que “bisbilhava”, para apresentar ao rei a solução ideal que há-de deslumbrar o seu primo Maximiliano, casado há quatro anos mas ainda sem oferta à altura da sua “linhagem e merecimentos”. O arquiduque austríaco é agora regente da vizinha Espanha e esta parece à rainha a desculpa perfeita para se livrar do elefante vindo da Índia e que “desde então não tem feito outra coisa que não seja comer e dormir”. Um elefante branco, tal como o nome do seu tratador indiano, Subhro, como mais à frente acabaremos por descobrir.

“O maior elefante branco que temos hoje no nosso País é a ignorância de quem nos Governa”, lamenta o director artístico José Rui Martins, já no final da peça. Se depender do Trigo Limpo Teatro Acert, as trevas que nos ameaçam podem bem sair derrotadas, tal como o teatro venceu esta noite o vício do futebol na televisão. O espectáculo não termina sem que as barreiras físicas que dividem actores e público sejam derrubadas. É nessa altura que espectadores e artistas se misturam e toda a equipa fica disponível para responder às múltiplas questões que o teatro convoca. Os actores dispõem-se, generosos, a tirar fotografias com quem pede. E são muitos os que o pedem. De desconhecidos a estrelas de rock, vai o passo de um paquiderme. Salomão, claro, é o John Lennon do grupo. Um miúdo pergunta à mãe se pode saltar lá para cima. A mãe ri-se e diz que não. O miúdo solta um sonoro e tristonho adeus ao elefante cor de ouro. “Esperamos que em 2014 possamos pagar parte do investimento que fizemos este ano, ou seja, rentabilizar” – desabafa José Rui Martins. “Para já”, remata, “foi um desafio ganho”.

<Texto>Inês Forjaz
<Fotos>Miguel Valle de Figueiredo

 

Mais informações aqui: http://www.acert.pt/aviagemdoelefante/