António Tavares: “Dança como Memória-Prima”

Artes Performativas

 

António Tavares.
Não… isto não é uma descrição rádio ou promo de tv e por isso… António Tavares. Bailarino, coreógrafo, músico. Já lá vamos à biografia toda. Decorem as palavra trincheira e memória-prima. São metáforas essenciais. Nesta série que pode não terá fim e que pretende dar voz aos artistas, dos mais aos menos conhecidos, reparo agora que existe muito em jeito de descrição a frase…. “ a primeira vez que a (o) vi”. Se Alice Joana Gonçalves vi num perfil de facebook e Rebeca Cunha numa fotografia de moda, se Flávia Gusmão e Teresa Arcanjo numa entrevista, Joclécio Azevedo em palco ou Rute Pimenta em ensaios na ESMAE noutro século, o António… o António Tavares caiu-me como um milagre em 1999 na exposição Comunicação e Comunicações, do Museu dos Transportes e Comunicações da Alfândega do Porto, onde era monitor. Eu. António Tavares. Eu… Monitor num espaço em que cada movimento que se fazia gerava um som. Nesse palco alcatifado António Tavares descalço, a um sábado qualquer, e um magote de gente para um workshop de Dança Africana. Verdade, sobretudo mulheres. Hoje pode parecer das coisas mais comuns do mundo em volta, mas na época era, de facto, diferente. António Tavares explica concretamente o fenómeno. Em 1999 eu contente por entrar no jogo, a sentir-me no meio de uma tribo que era aquela. Mas não a tribo como exotismo dos documentários… a tribo mesmo de pessoas (importa lá a cor) que de um lado para o outro com os pés ao bater fazia estrondo sob o ritmo de gritos “Ki KI RI KI” e o coro de vozes:”KI!”. “Ki KI RI Ka” e o coro de vozes: “KA!”. A imagem e som permanecem-me e as pessoas esgotadas mas africanizadas. Com certeza! Por que não? De lá para cá… pouco vi António Tavares… e de repente achando-o pergunto o que anda a fazer? A resposta é logo toda uma tese, e eu envergonhado com a desatenção.

taveres andanças

antonio tavares

 

<António Tavares> “Queres dizer…que matéria tenho na minha construção?”

(Pausa)

“Da minha trincheira tenho planeado vários ataques sabotage (sorriso óbvio para que não pensem os espiões coisas) por vários territórios e países. Neste momento, para lá da investigação e oficinas ligadas à Dança para pais e filhos, para não bailarinos, sendo que todo o meu trabalho vai na linha de procurar compreender certos aspectos da Dança… para lá de tudo isso estou a trabalhar em muitos projectos musicais. KALAKA KRIOULO BAND, JULINHO DA CONCERTINA, TCHABÁ com Bilan e ANTÓNIO MCFERRINHO com Nir Paris baterista (funaná-progressivo)”.

Não são coreografias ou simples interpretações dançáveis…

“Com JULINHO DA CONCERTINA acabámos de gravar o seu álbum e estamos na fase da mistura, com CELESTE MARIPOSA DISCOS. Confirmado concerto na LUX para breve… e com o TCHABÁ vamos estar dia 7 Outubro no Acontece”.

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Continuando em modo agenda porque da trincheira sai mesmo muita coisa

“E ANTÓNIO MCFERRINHO no Espaço Hangar…”

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Com tanta música devemos insistir na Dança. António Tavares. E, para que não carreguem no link leiam mesmo assim se não se importam. António Tavares: Bailarino e coreógrafo cabo-verdiano, inicia o seu trabalho na cidade do Mindelo, como bailarino do grupo Mindel Stars, com o qual faz a sua primeira digressão internacional em 1986, passando pela Holanda, Senegal, França e Macau. Em 1991 funda os grupos Crêtcheu e Compasso Pilon, desenvolvendo um trabalho de pesquisa sobre dança, sobretudo as danças tradicionais cabo-verdianas. Estuda na Escola Superior de Dança e na Escola de Artes e Ofícios do Espectáculo em Lisboa, onde acaba também por leccionar. Além de trabalhar com vários coreógrafos portugueses — entre outros, Olga Roriz, Aldara Bizarro, Francisco Camacho, Rui Nunes e José Laginha — desenvolve ao mesmo tempo os seus próprios trabalhos como coreógrafo e bailarino, seguindo uma linha de criação afro-contemporânea. Criou projectos como: “A Ilha”, “Clan-Destinos”, “Fou-Naná” (Centro Cultural de Belém-1997), “SOBREtudo” (Danças na Cidade’97), “Danças de Câncer” (uma co-produção Portugal/Cabo Verde, com música original de Vasco Martins 1999), “Caminho Longe” (New Jersey Performing Art Center – Nova York), “Different Voices” (Bates Dance Festival), espectáculo multimédia “Blimundo”, do cineasta caboverdiano Leão Lopes, “Spidaranha”, “Ópera Crioulo” (2002), “Recordai” (Mindelo, 2003), “K’mê Deus” (2003), ” White Noise” (Gulbenkian, 2005), “Some Voices” (Bélgica, 2005), “L’ Abbandono al Tempo” (Bélgica, 2006), Aniki Bobo (Casa da Música-Porto, 2008), Ópera “Crioulo” (CCB, Grande Auditório, 2009). Jus Soli 2011 (CCB Fora de Si).

 

Depois da biografia resumida, que nada de uma pessoa se resume à biografia e tendo em conta que as entrevistas não podem ser muito extensas, voltamos a todos essa “sabotage” de que António fala. Para perceber… o que se faz nesse cruzamento?

“Tudo tem a dança como finalidade. Ou melhor. É a partir das “Danças ocultas” (agora roubei este nome ao grupo do meu amigo Artur Fernandes) que tudo tem como objectivo a relação da Dança com a Música. Entendo que a questão do espaço e improvisação e de risco na música de Cabo Verde está em perda, bem como a relação dela com a dança. Então resolvi lançar a coisa ao contrário: fazer a música provocar dança. Por exemplo, nos KALAKA encontramo-nos para tocar sem ensaios, tudo acontece a a partir desse convívio dos músicos”.

Será que António se sentiu «bicho raro» numa altura em que as danças africanas não eram propriamente moda de tudo o que se vê em academia e aulas particulares?

(sorrindo e sem medo de assumir):

“Sim, fui eu a lançar as primeiras oficinas de dança africanas quando cheguei em 1991… Deus meu 91! E agora repara, agora estão na moda, ninguém fala de outra coisa”.

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Momento importante da conversa que não fica no meio termo. Apesar de ser sempre bom dançar será que a coisa anda a ser bem feita? kizomba, kuduro nos ginásios, “tendências” nos programas de tv?

“No próximo ano faço 30 anos a dançar sempre… é verdade! Sempre soube desta onda, ou que isto poderia desabar nesta onda, mas não esperava ser tão mediatizada assim. Vejo o boom e fico contente. Por um lado, por causa de cenas como o Festival Andanças em que estive por trás com mais amigos a receber milhares de pessoas todos os anos para ir dançar. Mas, por outro, fico um pouco com um trago amargo na boca quando vejo isso dos kizombas a desembocar para o pimba… coisa que poderia tomar outro rumo, caso tivessem dado atenção ao estudo e à investigação”.

E continua:

“Quando falamos destas danças estamos a falar de dança e diversão. Quando estou a falar nas minhas oficinas já vou para além desta cultura massiva que nos foi imposta com essa visão de que a Dança é à frente dos espelhos em que treinamos e a dança cópia. Não! Nós trabalhamos a dança que transforma a pessoa de dentro para fora… já estamos na relação Dança vs Saúde…”

A dança também continua, depois de bajulações minhas…

“Esta outra visão é a dança como a memória-prima (palavra a reter) do Ser. A dança é o resultado do pensamento… e então para isso questionamos tudo”.

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António Tavares… nunca AT (abreviaturas com pontos não) vai ter dar nos próximos tempos oficinas no espaço SOU do Largo do Intendente. Convida todos a a viajar com ele. E viajamos, por agora, na geografia literal.

“Andei estes últimos anos à procura de um espaço onde possa trabalhar e dar a conhecer em profundidade este meu trabalho. Estive no Sou hà dois anos a fazer esta coisa concreta baseada numa tirada do Beckett: “dançar primeiro e falar depois”. Aproveito para dizer que aguardamos resposta da Câmara de Almada”.

Mais viagem…

“Estive em Cabo Verde em Junho e senti a necessidade de ir montar a minha companhia ali. Poder criar um espaço laboratorial, pois sem este espaço não dás azo à tua matéria em estudo…”

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Novembro é tempo de Seminário na associação caboverdiana sobre a dança de/em Cabo Verde

É muito movimento, de facto… e a conversa decorreu antes das eleições, num ano com tantos preconceitos de migrantes ou refugiados, raças e empregos/desempregos a bombardear os nossos dias.

“São vários trabalhos em paralelo e que andamos aqui a desenhar desta nossa trincheira. Temos um encontro Afro em estudo, pois achamos que o País ainda não saiu do seu mundinho saudosista. Vai-se chamar TROKA-ENCONTRO AFRO-LX, com objectivo de dar a conhecer uma outra visão e filosofia Afro de Hoje”.

Estamos agora juntos na trincheira de António Tavares, e encontremo-lo por aí a disparar movimento genuíno

Tenho 48 anos… Sou de São Vicente. A minha página e produtora chama-se LEMBA.LEMBA

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<Texto> Nuno F. Santos
<Fotos> D.R.