Actriz Flávia Gusmão: “O Teatro Não é Igual Todas as Noites”

Artes Performativas

 

A primeira vez que lhe falei foi em 2011, numa entrevista para o Diário Câmara Clara, da RTP 2. Ela e Teresa Arcanjo eram as actrizes portuguesas. Melhor: era a estreia de «Saturday Night», uma co-produção dos escoceses Vanishing Point, encenada por Matthew Lenton. Na peça… Flávia e Teresa, já referidas, eram parte do elenco que se incluía no programa Odisseia: Teatro do Mundo. A partir daí, ela em todo o lado… até nas vozes dos «Litlle Einsteins» com os bebés da casa especados na música clássica da televisão e de uma nave e depois, sabe-se lá… em Lisboa… Cabo Verde…. Lisboa, eu no Porto. Sempre. E começa assim esta série de curtas entrevistas sobre artistas portugueses que se movimentam enquanto eu criei um Media para os não largar e perceber o que fazem. Ah, sim, o nome da actriz: Flávia Gusmão.
flavia 1
Actriz há cerca de 20 anos, sorri quando faz as contas porque sim os sorrisos dão para ouvir por telefone! 37 anos ontem. Neste momento ela é Electra na sala Garrett  do Teatro Nacional Dona Maria II, sob a direcção de Tiago Rodrigues e sob o desafio de escrever de novo em cima de três tragédias gregas, a partir da leitura de Eurípedes, Sófocles e Ésquilo.  O que gosta na Electra? A Flávia em palco é um “cometa” leio e partilho… mas fora dele é muito simples nas explicações. Tão simples e aqui vai, parecendo quase nada mas é tanto…. E adiante a melhor frase: “Gosto sobretudo de estar a dizer aquelas palavras com aquelas pessoas. O Tiago Rodrigues escreve a pensar nos actores para cada personagem e o que a mim Electra me movia era o amor mas, na prática, acho mais graça aos espectáculos que vão mudando de noite para noite. Se é uma regra de Electra? Não… o teatro é que nunca é igual todas as noites”.
electra
Sobre as escolhas que uma actriz faz, Flávia diz a minha coisa preferida, a tal melhor frase do parágrafo anterior: “hoje escolho melhor os projectos por ter uma filha”. Então mas?!? Quando há filhos não se escolhe… é dinheiro temos de os manter!!!  Seriam assim mais ou menos as palavras da maioria… das palavras entre nós se ninguém nos lesse. Confrontada com isso mesmo: “Tenho de escolher melhor os trabalhos que faço, porque é tempo que não estou com a minha filha e é tempo que tenho de pagar a alguém para ficar com ela”.
Antes, ser actriz era a coisa mais importante do mundo e agora continua a ser, mas a seguir à filha. Claro que os actores também têm filhos! O que muitos ainda não sabem é que viajam muito sim, mas dos recibos verdes às facturas, do trabalho ao não trabalho e são, também, as escolhas que fazem, os textos, os encenadores.

Flávia Gusmão é actriz freelancer. Ouve muito Caetano Veloso. Estreou-se em Agosto de 1996 com «Audição Mecânica para 13 Actrizes», de Graça Correia… no Teatro Mirita Casimiro.  Já fez alguma televisão, das séries às telenovelas e o que acha? “É muito difícil fazer um bom trabalho porque há cada vez menos tempo para gravar uma série de cenas”.

Quando está nervosa pensa: “Calma, já interpretaste Shakespeare todo em Inglês!”.
flavia 3
Flávia vestiu a camisola do Flamengo em «Amor», encenado por Marcos Barbosa, «vociferou» a Academia, a Igrejas, os Media, tudo na hipocrisia e sujidade de sangue como no texto do brasileiro André Sant’Anna. E foi Melhor Actriz para Sociedade Portuguesa de Actores em 2014 por «As Centenárias», onde apareceu “por acaso graças a Natália Luísa”, com produção do Teatro Meridional e daí, curiosamente, a filha… a filha durante «As Centenárias». A vida mudou e mudará. E com ela as escolhas também.  Até 4 de Outubro no TNDM II
flavia 4
A última vez que lhe falei foi a 28 de Setembro de 2015. Continuaremos.

<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos>D.R.