Pedro Roquette: O Actor Que Não Quer A Fórmula

Artes Performativas

 

Está um menino de patente na Guerra Colonial a fumar bastante e à conversa com outro militar. Está em cima de um palco e não tem nada a ver com a Guerra mas meteu-se nela. O Teatro Ensaio e o livro Não Sabes como Vais Morrer levam-no a deitar da boca fora em Estórias do Mato coisas das quais não imaginaria, talvez, que alguém passasse. Nem a fumar tanto numa conversa.

 

Nada do que escreveremos tentará a simpatia ou empatia ou a noção de uma entrevista de fundo. É apenas um actor sem filtros numa pergunta vs resposta, assumindo a idade e o que quer. E enquanto se analisa o CV na página Agente a Norte percebe-se a quantidade de gente que ainda existe para entrevistar. E os que não estão agenciados! A Voz a quem Quer Gritar é um dos slogans da TKNT e há quem não tenha sequer um palco, mas é de todos que queremos ouvir e ler. Falta-nos tanto e o Pedro está nos momentos em que a TKNT se mostra no Metro, nas publicidades a soutiens “eject” que não saíram dos computadores ou no documentário Entre Dois Rios e Outras Noites, sobre a vida e obra de Ana Luísa Amaral.

Quando o víamos – nós cuja idade não revelamos – na série para a RTP 1 em 2005 com o inspector interpretado por Rui Spranger em Triângulo Jota – a partir dos livros de Álvaro Magalhães -, de graduação mas não graduado, a espreitar os casos com os companheiros detectivescos, esperávamos com certeza que ele descobrisse a Guiné de outros tempos, Angola, Moçambique ou até o Vietname. Fosse no Cinema, numa série ou num palco… como foi o caso. Foi não foi?

Há toda uma viagem que a nova geração de actores faz sem se descolar propositadamente desse propósito herdado de quem viam e como viam fazer. Os de outras gerações continuam a ser pacificamente referências. Pedro Roquette ainda é chamado de menino às vezes pelos actores mais velhos e não se importa… ora é como o militar que atinge a patente que atinge por trabalho e não se incomoda. No momento prefere não encontrar a sua forma de ser actor. Contorna o primeiro cliché da pergunta mal amanhada.

Espero não encontrar. Não estou a tentar ser profundo, só acho que não deve existir uma forma de ser actor. A tendência é precisamente essa: cair na forma, numa fórmula qualquer de representar, de construir a personagem, tiques, etc.. Existem muitos métodos criados na história do Teatro e do Cinema que são muito úteis para os actores. É bom conhecê-los, mesmo que não os usemos. Procuro a minha forma de ser actor em cada trabalho que faço. Nem sempre consigo.

Ontem o Pedro apareceu-nos no ecrã antes de uma música dos Velvet Underground como publicidade: arrumador de carros. As pessoas da rua não sabiam que era actor. E depois lembramo-nos dele em curtas como Ventre ou numa recente série filmada e exibida na RTP, Vidago Palace.

Em cena, por exemplo, para a TKNT e os filmes mudos que rodavam de 20 em 20 minutos no Metro do Porto, o Pedro sugeria cenas sem se querer sobrepor e demorava o tempo que fosse preciso para gravar. Daqueles que vamos encontrando pelo caminho como as Manas Allen (Sara e Xana) ou a actriz Sílvia Santos, vão-nos contando que também já trabalharam com o Pedro.

Está um homem de patente na Guerra Colonial a fumar e esteve, alguns meses antes da peça do Teatro Ensaio com que abrimos esta entrevista corrida, cerca de cinco horas seguidas dentro de um carro a fazer de figurante para um documentário. Não se lhe viu a cara no trabalho final. Só a sombra. Mas isso não o irritou. Não foi alguém com tiques de projecção ou ego que já tinha participado numa série com alguma projecção e não precisaria de se lhe ver a sombra debaixo da chuva dos bombeiros com graus abaixo de zero. Irrita-o sim a falta de diversidade. Expliquemos, citando-o: Fazem-se demasiadas peças que não querem dizer nada e poucas sobre o que se passa hoje! Fazem-se muitas peças de teatro de autores antigos tentando que elas façam sentido hoje, numa procura rebuscada de encontrar actualidade. Essa é a principal razão de muita gente não gostar de Teatro, porque o Teatro não lhes diz nada.

(Sem medo, portanto, de assumir a crítica)

Defendo que deve haver todo o tipo de Teatro para todo o tipo de público… mas falta o teatro de hoje. Falta pessoas que escrevam, não só para Teatro mas para Cinema e Televisão também. Isso irrita-me!

E o segundo cliché. O que o apaixona mais nos dias em que a palavra apaixonar é usada como glamour ou nas receitas dos Master qualquer coisa. Mas um profissional tem o direito de se apaixonar pelo trabalho de alguma forma. Que se dane o cliché. Siga Pedro: Mais do que ver, o que me apaixona é o fazer. Não só representar uma determinada personagem mas todo o processo para construir um espectáculo. Poder estudar e descobrir coisas sobre o tema que estamos a abordar. Compreender os diferentes pontos de vista de cada personagem. Todo o trabalho em equipa e o ambiente familiar que existe. O processo, é o que mais me apaixona.

No meio da Indústria Cultural e, sobretudo no jornalismo ligado às Artes e Espectáculos, falamos de Actor e logo nos aparece a imagem de um palco. É assim ou… ou não? (sendo que não damos respostas mas perguntas. Entrevistado e entrevistador) Sim, e acaba por ser quase verdade. A maior parte dos actores trabalha mais em Teatro do que nos outros sítios. Existe muito mais Teatro do que telenovelas, embora o número de espectadores num e noutro seja absurdamente diferente, por razões óbvias. E o facto de um actor trabalhar mais em Teatro ou em televisão, depende muito do sítio do País onde mora e trabalha. (Porque a TKNT é parcial e nos apetece realçar esta frase colocamo-la a outra cor ao acaso). No caso de Portugal sabemos que praticamente só se faz Ficção em Lisboa e, muito pontualmente no Porto e outras cidades. Mas sim, sim um actor pode fazer dobragens, locuções, anúncios, cinema…

Ah o Cinema

Cinema é algo que eu adoro fazer apesar de apenas ter feito curtas-metragens, para já. (Sabemos que o para já é mesmo um para já e não uma simples fala de entrevista). É um processo de trabalho que tem semelhanças com o Teatro mas onde o resultado é diferente. Normalmente existem ensaios, o que torna o trabalho mais rico e consistente, mas exige uma técnica diferente por parte do actor. É pena não existir uma Indústria Cinematográfica em Portugal que faça com que se produza mais Cinema. Por agora, o que temos são realizadores ou Produtoras independentes que vão arranjando os seus meios para produzir. Era bom também encontrarmos uma identidade mais justa no Cinema Português. Acho que ainda não a temos.

(A opinião de alguém quando se lhe pergunta qualquer coisa é sempre discutível se não for no meio termo. O facto de Pedro Roquette ser disponível e generoso não quer dizer que concorde com a generalidade ou tenha sequer medo de contrariar alguém que possa vir dizer que sim que existe Cinema Português ou que se faz muito mais Teatro do que Telenovelas).

Membro e fundador da companhia de Teatro Os Bisturi

Que mundo é que te aparece no Triângulo Jota e o mundo do depois?

A série Triângulo Jota foi o meu primeiro trabalho. Desde os sete anos que queria ser actor, mas foi a partir daí que tudo se tornou mais concreto. Esse trabalho deu-me a oportunidade de conhecer muitos actores que me incentivaram a estudar Teatro e a continuar a carreira. Foi um impulso que deu um rumo à minha vida. Quando acabaram as gravações comecei a minha formação em Teatro e que durou três anos.

As portas ficaram definitivamente abertas…. com ou sem exigência maior?

Após um ano e meio de filmagens eu tinha que voltar aos estudos e fazer o Secundário, por isso não fui atrás de novas oportunidades de trabalho. Se tivesse ido para Lisboa nessa altura, tentar entrar numa novela… talvez tivesse mais facilidades sim, apesar de nada ser garantido. Mas as minhas motivações eram outras. Comecei os meus estudos na Escola de Teatro e aí é que se abriram outras portas.

 

Ainda não sei quem sou, estou me a descobrir. Sou mais do que aquilo que está por fora. Estas frases ficavam muito bonitas nesta entrevista mas já enjoam. Sou um rapaz a chegar aos 30, curioso, insatisfeito(será que já chegou aos 30 anos depois de tanto tempo da entrevista?)… com sentido de humor, irónico, chato, simpático, amigo do meu amigo, crítico, inimigo do meu amigo, com vontade de trabalhar, calmo, estatura média, indeciso, pragmático, corajoso, sério, magro e não me lembro de mais nada para já sobre quem sou.

 

<Texto>Nuno F. Santos fez as perguntas e o arranjo de uma entrevista que terá segunda parte daqui a um par de anos.

<Fotografias D.R. e Paula Preto para Agente a Norte >