Judas Ardeu! Mas a Luta Ainda Agora Recomeçou

Artes Performativas

 

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E agora Zé?
– “Agora é fazer de cada dia um momento de demonstração da autenticidade cultural de um colectivo…”

judas a queimar

E agora Zé? E agora que o Judas está queimado e o espectáculo de rua que só queimará um outro Judas na véspera de um domingo de Páscoa… mesmo que tenha este, como os outros todos aí em Tondela, sido laico bem no fundo? E agora?
– “A luta continua. A ACERT não aceitará rotinas, institucionalizações ou pedestais. A ACERT não se pode acomodar.

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Podíamos ter começado por muito lado… por dentro, por fora… por muita coisa, por muitos ângulos por muitos anos, por muitas pessoas. Mas, e antes que este texto com muitas fotografias soe a qualquer pedestal pretensioso, tal como José Rui Martins responde ao pós-queima do Judas, agora este texto que iria começar quase pelo início – que nunca seria o início… ou então teria a TKNT de ir à cama e às insónias dos que criam e desenham o Judas e os projectos de teatro de rua – agora… este texto que começaria então quase no início… começa quase pelo fim!

espetaculo

A tradição que em 1985 foi entregue por um grupo de pessoas ao Trigo Limpo Teatro ACERT para que queimasse o Judas, para que fizesse a festa, para que se responsabilizasse por esse ritual no fim da missa de sábado de Aleluia. O testemunho, qual tocha olímpica ou estafeta – aqui também hoje correm numa semana apenas de preparação -, foi entregue em trapos desse Judas quase espantalho, aposta-se. Aí sim… foi quase o início. Ao imenso resto nunca iremos porque não conseguimos contar tudo. Não porque este seja um tempo de pressas nem de falta de paciência para ler

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onde é sempre preciso um “ler mais”, como se fôssemos tolinhos e não soubéssemos quando parar. Como se os empregos ou os desempregos fossem desculpa para não ler ou ver mais de minuto e meio

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Não… não por isso, mas porque não temos dados suficientes para sermos quase precisos. Há muitos quases? Claro, mas chegamos aos quases antes de queimarmos. E o Judas de Tondela, como em Trás-os-Montes ou no Minho, como no Alentejo ou no Algarve, como nas ilhas e nas ilhas que não conhecemos foi queimado, morto, esfolado sem reportagem de televisão que se diz televisão. Talvez porque não tenha trapos. Talvez porque os populares se sentem em bancadas. Talvez porque tenha bombeiros e muito fogo de artifício. Talvez porque tenha música e texto, coreografia e quase 300 pessoas envolvidas. Talvez porque não haja um copo de vinho ou um animal verdadeiro embrulhado em pão de ló. Talvez porque tenha teatro interpretado pela primeira vez para uma população que não se esgota no centro da cidade chamada de vila muitas vezes e talvez porque leve das aldeias e outras vilas e cidades gente para ver, participar, ensaiar, pintar, queimar. A televisão que é televisão não pode escrever nem fotografar. Tem de ter alguma coisa diferente de ano para ano… é por isso que as peças das horas de almoço e jantar falam todas as páscoas de coisas diferentes. Certo? Talvez um dia este Judas… ou melhor, esta queima de Judas seja mais importante que um ponto do Tondela conquistado em Alvalade. Até lá só vos dizemos… era para ser uma

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… Era para ser uma toupeira. Mas sem relva não imaginemos um animal a rasgar o alcatrão ou outros terrenos, e não o queremos a derrubar árvores como o Godzilla ou o apocalipse. O que queremos ou queríamos pouco importa porque o destino estava traçado. O Judas ia rebentar, ser esfolado… trapaceiro, ia arder. Junto ao parque urbano e à feira. Arder como no outro ano. E no outro e no outro ano. E em sítios diferentes. E o Márcio tem 20 anos e há 20 anos este que também vos escreve e convosco escreve estava junto ao desenho de luz do Luís Viegas (muitas edições incluindo esta é o Paulo Neto que o faz) e os outros, tantos muitos de todas as gerações e locais a quem dávamos nas vistas ou nos envergonhávamos, esses conhecidos e desconhecidos dançavam em volta do fogo com palavras populares e sofisticadas para lá do literal, que o povo não é burro. Perguntam do que falavam as queimas de Judas? Ai sei lá! Falavam da estação e do comboio que já não passa, pois que era uma espécie de carnaval para dar recados. Se levam ou não a mal… hum… lá fica o recado, nacional e internacional. E o recado este ano foi, e chover no molhado é preciso, para um mundo indiferente que, mais do que não respeitar mais de metade do outro mundo… muito mais de metade, vive à custa dele. Chover no molhado é preciso. Achávamos que não. Mas é! Basta ver o que se faz a esses que atravessam mares de mortos para serem enjaulados nas laterais dos países. Há que chover no molhado.

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E Agora Zé (Tavares)?
– “Agora iniciamos a Judíada… o período que separa duas queimas.”

E agora Miguel?
“Agora limpa-se, arruma-se e parte-se para outra: O Pequeno Polegar!”

O André que fez anos por estes dias caiu uma vez do cimo do Judas. Já teve tantas formas… até porco. Porco? Sim… porco! E agora…. o Márcio que nasceu nesse ano em que o Luís me deixou mexer nas luzes mostra o que é e o que foi o Judas em forma, pronto a ser alvo e usado como teatro de rua com aquilo que o teatro de rua melhor tem. Perguntava-se aos cântaros: E se chover? “Se chover afoga-se”. E a verdade é que choveu um sábado inteiro… mas não às 23h30… hora que interessava que não chovesse. São Pedro estava com o Judas. Está sempre. E o rabo molhado nas bancadas aquecia com a música da Filarmónica Tondelense – metáfora tonta e usual –  mas também enxugava com a fogueira literal do Judas a queimar. Agora não há metáforas. Nem metáforas nas vozes da opereta da Luísa de flauta e o coro das oito mulheres; Nem metáfora nos textos do Zé Rui (José Rui Martins) que pergunta sempre “que mundo é este minha gente?”; Nem metáfora na abertura de uma queima com a mensagem do encenador russo Vassiliev para o Dia Mundial do Teatro lida por uma criança; Nem metáfora para as guitarras distorcidas (TREnÓS) nem percussão que foram a banda sonora do momento em que Outros de Outro Planeta tiravam aos populares à procura de uma vida nova… tiravam… tiravam o que tinham e o que não tinham. O Reino da Dinamarca muda de fato mas não muda de facto. Populares com voz: “Alto lá, alto lá!!!”.

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Para o ritual coordenado pelo Trigo Limpo em grupos… (Sandra, Raquel Pedro com interpretação, Ruy com movimento e coreografia, Ilda com os poderosos do G8, Tiago com a percussão, Zé Tavares com a Cenografia, Luísa com coro) ergue-se a fábrica do Judas no Novo Ciclo. Os voluntários são pagos. É preciso ter, pelo menos, 14 anos de idade. São pagos em fogo e palco, pagos em festa com direito a exorcizar todos os males e trabalho duro dos bastidores à cena da experiência artística. Há sempre profissionais contratados para se juntar ao Trigo Limpo. Este ano o Fran esteve em digressão nos Estados Unidos com a Uxía e… tantos para falar! Nunca se fala tudo, nunca se falam todos. É sempre o quase… vêem, bem vos escrevemos isso frases atrás! Uns regressam a casa, outros são sempre da casa. Uns conhecem um Judas em grande que se espalha em grandes cinzas, outros lembram-se de serem vinte no campo de futebol. Uns e Outros. O Jorge, da casa, irmão de cena do Zé Rui e criador do amador grupo de teatro Arte Fêmea… o Jorge vem do Canadá e volta agora para o Canadá… Toronto. Será sempre do Judas e de todos os espectáculos. Como a Carla. A Carla está sempre e faz falta… mas sente-se sempre o que diz. Sentimo-la neste texto. E Toronto, estranhamente, é bem mais perto do que Lisboa e Porto em algumas ocasiões. É assim nas geografia das pessoas.

Calma Antes de LER MAIS. Respiremos. Braços para cima…. Brrrrra…. Brrrre. Brriiii expirar… braços mortos braços mortos. Inspirar…. baixa baixa baixa…. expira.

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Lembram-se dos trapos entregues em 1985? Durante dez anos assim se manteve em grupo pequeno. Mas depois a coisa cénica tinha de crescer como o Judas, para queimar mais alto. A evolução deste espectáculo acompanha a ascensão sem queda de um grupo de teatro formado em 1976 e que se tornou no primeiro a representar Mia Couto em Portugal (é chover no molhado sim, e se chover no molhado não é exclusivo, não é aqui que será esquecido), a levar à Expo 98 a máquina de peregrinação Memoriar. Grupo que de Faca e Alguidar ou na Roda da Noite, de festivais Tom de Festa em Tom de Festa e abrindo as portas de um Interior mais aberto que o Litoral, que das Cadeiras do Lobo Antunes ao Transviriato de Jaime Rocha, que dos músicos do Buena Vista pré Win Wenders e ao jazz de Thomas Chapin – e falamos sempre em chuva… pois se Chovesse Vocês Molhavam-se Todos – passava a convidar e a levar a um sábado de manhã uns fulanos tais de José Saramago ou Sebastião Salgado, juntos em trabalho fotográfico e numa sala de cinema já do Novo Ciclo. Eventos, enfim! Que isto não é só Teatro. Grupo que que de faca e alguidar lutava e representava contra o medo e desespero a favor de uma dramaturgia diferente e inclusiva, sem complexos de públicos. Esses trigos limpos e farinha amparo até anos mais tarde, esses que ajudaram, se socorreram e abraçaram outros colectivos onde tudo se estende sem se distender que neste estômago nunca há enfartamento. Esses, voltaram neste Judas a falar de indiferença contra a indiferença. Parecia um regresso ou uma estagnação na actualidade do teatro… infelizmente não… não era estagnação! E por isso tão bem encaixou na cena a tal mensagem do Dia Mundial do Teatro.

Ora, nesse lugar de tempo que descrevemos um outro espectáculo entre quilómetros de… outros espectáculos: «Faldum». Fotografado por Susana Paiva, que esta semana regressou, também 20 anos depois precisamente, a Tondela e ao Trigo Limpo. Para fotografar pois claro. E o Márcio também fotografa tudo, e o Chaves e o Teles o fogo. Márcio, o que achas que ficaria bem aqui, meu estudante do primeiro ano de fotografia da Lusófona, em Lisboa?

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Andamos para trás como o caracol. Ah ah ah ahhhhh. Parecia um caracol mas não… ele não anda para… esqueçam! Estamos a dez minutos da Queima do Judas. Vamos arrancar de uma aldeia próxima onde estamos hospedados em regime de benefício familiar. O ensaio da tarde foi impossível de fazer à chuva. Fez-se no auditório 1 do Novo Ciclo. “Mais importante do que muitas outras coisas… Lembrem-se: o mais sujo que se pode fazer em teatro é corrigir um colega em cena”. José Rui Martins, o Zé Rui, que relembremos assina o texto todo desde as Voz Off aos actores – delicioso o momento de slogans radiofónicos interpretados pela voz que diariamente cita os discos pedidos dos sócios da Rádio Emissora das Beiras… e delicioso porque é possível o humor e levar-se a sério no que se é e se faz, não se levando demasiado a sério no resto da vida… caso de Maria Helena, a voz – vai também continuando o que o Ruy Malheiro começou minutos antes nas instruções do percurso e da sala de maquilhagem. “Somos cerca de cem na sala orgânica, por favor ninguém toca em adereços que pareçam desarrumados (…) mas acima de tudo curtam!”. Ilda Teixeira também (o primeiro Judas dela foi em 99) no mesmo sentido, alertando para as expressões faciais que podiam fazer toda a diferença: “Olhar em frente. O vosso trabalho cresce três vezes se o fizerem”. A Raquel, o Pedro e Sandra acham que falta qualquer coisa, voltam ao palco. E o Pedro, insiste: “Olhar em frente, lá para o fundo, olhar o público que está lá em cima”. Para estes grupo que interpretam os populares I e populares II (cerca de 90 voluntários, na maioria adolescentes que estão no auditório) percebe-se que o que aprendem com o Teatro é também e muito a cidadania. Recuemos então como o caracol. Ai não… não de novo (sorriso largo e estúpido a escrever) quem anda para trás é o caranguejo!!! Mas… é um caracol ou um caranguejo? Rápido, todos ao desenho.

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E depois os vimes e muitas horas e chuva e Primavera falsa. Depois uma forma… e a festa. É festa, mesmo que pelo meio exista um jogo de enganos a brincar para falar dos enganos a sério no mundo estúpido. Haja esperança. Haja Luta.
O Miguel e o Pompeu, os manchas negras, ficam mais perto do fogo de artifício… o Miguel e o Pompeu têm uma aplicação no telemóvel para ver se chove à hora da Queima. Márcio… está a chover?

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Como podem ver, não está nem esteve a chover. Já vos tínhamos dito. Parecia um filme mudo o início com os acenos do G8 e a Terra lançada por cima de quem antes a segurava. Mas o que se lembrou num teatro de rua/musical foi a actualidade desmembrada. Tão curioso… de uma das laterais para ver o teatro muitos entram para ficar de pé. Não querem a bancada que vai enchendo e enganam-se porque ali é o recinto da feira mas não o da Queima do Judas. Separa-os uma rede… que não é farpada, mas que… imaginem se fosse e se não pudessem voltar? Ver o mundo a arder, justo ou injusto e não poder fazer nada? “Mais vale morrer de barriga vazia do que a arrotar”. Haja humor. Daí a umas horas crentes e não crentes vão beijar o Senhor.

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Era para ser uma toupeira, mas calhou ao Judas ser um Caranguejo-Ermita. Não é um caracol, mas parece! E também parece Louva-a-Deus porque precisava de um volume… de umas patas, de uns olhos enormes que pudessem ser queimados em nome de falar para matar a fome e esfolar o mal. Pinta-se muito a base que começou com os vimes então… pinta-se e corrige-se para parecer ser mais volumoso do que aquilo que é. Os falsos gigantes também assustam. Que mundo este e que Judas este… ficando pois vós com a descrição do animal com pormenores e características tão curiosamente delicadas e colectivas, num tempo em que tudo arde: “Caranguejo-ermita é um bicho muito vulnerável. O seu abdómen é mole e não tem carapaça protectora. Por isso ele procura uma concha vazia de outro animal e passa a usá-la como abrigo. Para ficar mas seguro ainda, ele arranja uma espécie de guarda-costas, a anémona do mar, que empurra para cima da concha com a sua pinça. A anémona também sai a ganhar neste mutualismo, pois passa a comer sem fazer esforço. É que este caranguejo de carapaça à la Caracol desfaz em pedaços os peixes e outros alimentos. Os pedaços ficam a flutuar por perto e a anémona… ai ai… vai e alimenta-se com eles. Por sua vez, os tentáculos com células urticantes da anémona protegem o Caranguejo-Ermita dos inimigos”.

“La la la la la la la la la la/ ehhh ohhh/ ehhhh ohhh”
E agora?
Agora, lugar a um enredo alucinante sem duplos nem heróis, partilhado e cosmopolita”.
– “Agora parte-se então para outra com energias renovadas. E Viva o Judas… PUM!”

<Texto de Nuno F. Santos – Cash – a partir do trabalho fotográfico de Márcio Ribafeita>. Um regresso absolutamente parcial em forma de TKNT. Sigam as seis últimas imagens até quase ao início. Nunca é início e nunca acaba… imaginem do texto e das memórias de uma semana apenas o que vos pode fazer uma Queima do Judas.

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