Caminham Nus Empoeirados Comendo Amor de Actor

Artes Performativas

 

A cerca de 150 quilómetros da Capital do Estado de São Paulo ainda chegam os actores com chapéu na mão, longe dos cuspidores de fogo dos semáforos perto da avenida paulista ou dos truques mais elaborados. São saltimbancos que não pararam no tempo, mas ainda devem acreditar na ingenuidade de um simples truque de actor. Eu não vi, mas viu Luísa Pinto e vê Gero Camilo, os dois encenadores – felizes numa primeira encenação conjunta que partiu de admiração mútua pós Aldeotas e A Elegante Melancolia do Crepúsculo – que no dia 2 de Outubro estreiam no Cine Teatro Constantino Nery, em Matosinhos, «Caminham Nus Empoeirados». Em resumo, nada disto é sempre claro por isso o melhor é verem ao vivo… em resumo dois actores fogem da aparente estabilidade de uma companhia na procura de um trabalho à medida dos seus sonhos, que pode ser a mesma encenação. Parece tudo em dupla neste espectáculo… apenas um ponto curioso. Um português e um brasileiro. Cá está! Eles narram ao mesmo tempo que interpretam, contando as suas histórias envolvidas numa só como aventuras, e pois que o são também, num palco com poucos adereços, figurinos antigos e cenas que parecem longe de nós. Longe assim: “é ficção”. “Só no Brasil”. “Eu lembro-me bem disto que me contavam os meus pais”. Mas o pouco dinheiro que recolhem (levem pelo menos uma moeda de um cêntimo no bolso por favor) é bem patente do tal EGO que se faz eco neste espectáculo. Ou seja: a vida de artista não é bem o que as pessoas pensam.
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Luísa Pinto, encantada… nestes dias que tanto se fala de política e direitos em Portugal e Brasil por razões diferentes… encantada, escrevíamos, pela democracia de encenação a dois. Com Gero Camilo, que sim “apareceu em telenovelas e nos filmes Carandiru ou Cidade de Deus”, diz, umas horas de pouco sono depois do ensaio aberto para lá dos jornalistas: “ Só poderia estar feliz com o resultado deste espectáculo assumidamente popular que explora esta temática da condição do artista, transversal entre os países, nomeadamente entre estes dois”. Cansada, em primeiro porque decorre o Cena Contemporânea de Matosinhos na altura deste ensaio, e cansada porque é directora do Nery e responsável pela programação que acolhe e organiza o festival. Poderia ser do resto da vida, se houver resto da vida para Luísa, Gero, Victor, João e todos os que criam efeitos de luz e som. Quanta vida há para lá da vida dos artistas? Que se reflicta ao som divertido de «Caminham Nus Empoeirados», neste turbilhão que se foi trabalhando também, sempre sob a luz de dois países que ainda têm ressentimentos de colonialismo, entre outras desconfianças de parte a parte. Gero e Luísa não fogem ao assunto. Há, aliás, um momento no espectáculo que ouvirá dois textos lidos em simultâneo pelos protagonistas de toda esta senda (João Costa e Victor Mendes) e que vão à independência e liberdade como vão ao que foi o colonialismo por entre o fascínio de quem o fazia e o choque de realidades para quem foi colonizado, para não dizer mais. Ironia e amor. E é o amor que os salva. Aos países ou… Talvez? Perguntam o quê…. O amor entre os dois homens actores? ! Pois então! Ora não foi precisamente com as actores das telenovelas, globais ou não globais, que entendemos muitos de nós que é não faz sentido condenar amor entre pessoas do mesmo sexo? Foi sim também! E este “globais” vem da Rede Globo. Lá por ser um espectáculo assumidamente popular não quer dizer que não seja profundo e corajoso.
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E o que se viu no ensaio? Uma comédia ternurenta. Não fica bem ler isto para uma peça de teatro? Deixem-se disso! É uma comédia ternurenta e, ingénua de propósito, quando os actores saem da própria personagem até para tocar o público, tocar com o público, levá-los até aos lugares e, sobretudo, interromperem as cenas interrompidas – é mesmo para brincar com a língua como a peça assim brinca de igual forma – por causa das… palmas. A inevitabilidade das palmas é algo que surpreendeu mesmo os encenadores e actores no fim de uma canção ou no fim de um amor consumado pela solidão. Sim, é de novo isso que estão a pensar!

Se tem data o tempo por onde caminham? Não sabemos ao certo. Se tem lugar? É um palco e cabe a quem vai assistir decidir onde é quer ir (sempre a rimar) com estes actores que fazem de actores. Que há Fernando Pessoa… Há! Que há os direitos de autor… Há! Que há direitos das minorias… Há! Que há uma tela com sombras num mundo de fábulas… Há Com Certeza, ou não estivesse Luísa Pinto ainda fascinada com a ligação ao cinema, à tela que já vem de espectáculos anteriores.
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Aqui, Gero Camilo, teve de fazer a adaptação do conto inserido em «A Macaúba da Terra» para que um dos dois actores fosse português e… até parece fazer sentido desde a origem, como se estivesse destinado, porque não desvirtua no palco que vimos, por acaso em Matosinhos, “o nordestino rural e o urbano, personagens primitivos e sofisticados” e tudo o que, mesmo não trazendo na pele, possa lembrar os indígenas brasileiros e os dois povos unidos pelo teatro e literatura. Há em Gero Camilo, apostamos muito do que apaixonou Luísa Pinto a trazer «Aldeotas» a Portugal, precisamente há um ano, uma delicadeza no conflito das personas e uma poesia a que é impossível fugir.
Só poderias resultar num olhar colorido de uma dupla que se vai sintonizando, cada um com sua pronúncia e até sotaque, cada um com seu samba ou fado, num final….

<Texto> Nuno F. Santos
<Fotos> D. R.

Ficha Técnica
Texto Gero Camilo
Direção Gero Camilo e Luisa Pinto
Intérpretes João Costa e Victor Mendes
Produção Cine-Teatro Constantino Nery/Câmara Municipal de Matosinhos
Autorias
“São Genésio” e “Arteiro”: Gero Camilo e Tata Fernandes.
“Chuchuzeiro”: Criolo
Agradecimentos Criolo, Rui David, Tata Fernandes e sanfoneira Lívia Mattos
Apoio à Produção Mundo Razoável