As mulheres sobre as mulheres de «Onde o frio se demora»

Artes Performativas

 

De Trás-os-Montes a Trás-os-Montes, de um distrito a outro, vão nove dias de distância entre as duas apresentações da peça «Onde o frio se demora». Teatro de todas as estações e causas produzido pela Narrativensaio e que esta quarta, 6 de Abril às 21h3o, está em Bragança e, a 15 de Abril, 21h30 também, em Vila Real.  70 minutos com música ao vivo e sonoplastia de Peixe, fotografia e vídeo de Paulo Pimenta, luz de Bruno Santos, encenação de Luísa Pinto, interpretação de Margarida Carvalho e e texto / suporte dramatúrgico de Ana Cristina Pereira. Dramaturgia de uma causa portuguesa com certeza – muitas casas com coração abandonado e queixas a quem as quiser ouvir e dar voz. A TKNT faz três perguntas às três mulheres que dão palco e voz, precisamente, a outras três mulheres reais. As que são donas das palavras, do texto antes da impressão, dos medos, dos amores, das coisas que falham, do sem filtro agarrado à conta de muita sensibilidade. Se isso for a base do jornalismo, fantástico! Se isso resulta em Teatro, melhor ainda! E a primeira pergunta à pergunta do que é esta peça ou, no fundo, à pergunta ou à procura de quem são e por quê estas mulheres de quem se fala na peça? Elas são a peça também, sim… claro! Perguntas cruzadas… começamos com a encenadora Luísa Pinto, doutoranda em estudos teatrais e performativos na Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra. Encenou mais de 20 peças, de «Mil olhos de vidro» a «Missa do Galo», «A elegante melancolia do crepúsculo» até a «Breviário Gota D Água», de Heron Coelho a partir de Chico Buarque. Muitas outras criações de elencos e bandas sonoras sintonizadas, aproximando-se do cinema em cada peça… cada vez mais.

frio

Depois, as três perguntas a Ana Cristina Pereira, repórter do PÚBLICO que se dedica, “mais do que tudo”, aos temas de exclusão social e direitos humanos. Algumas reportagens podem ser lidas nos livros «Meninos de Ninguém» e «Viagens Brancas». Participa em diversos projectos de solidariedade social… Do trabalho desenvolvido para a Casa dos Direitos resultou o livro Desafios – Direitos das Mulheres na Guiné-Bissau, que co-assinou com Nelson Constantino Lopes e escreveu com o também jornalista Mike Jempson, com edição da SOS Racismo (livro a que voltaremos em breve) «Todas as Vozes». Ana Cristina Pereira está em Myanmar quando lhe escrevemos na rede, já que o telefone toca depressa de mais. Escreve por telemóvel e repete as respostas, editando-as. Tem o máximo cuidado com o que escreve, com o que diz, porque sabe que o que lhe sai é muito importante. Luísa Pinto está, com toda a certeza, em Bragança. Já esteve em São Paulo como formadora de oficinas com textos sobre mulheres, a cirandar com o feminino e com o feminino… com a tal causa. Dia 5, pouco antes da meia-noite, acaba o ensaio e a actriz Margarida Carvalho vai descansar para nos responder às três perguntas. Importante é a peça… as respostas que não chegarem transcreveremos nos nove dias de distância de Bragança a Vila Real. E isto somos nós que dizemos, porque sabemos exactamente o que importa. Isso sabemos. É mais importante ouvir o que nos dizem Elas no palco do que o processo…. entretanto.

 

<TKNT> A ideia de três monólogos uma actriz uma peça como surgiu e se haverá um dia em que não fará sentido falar de mulheres?
<Luísa Pinto> Infelizmente ainda é necessário reflectir sobre questões como igualdade de género, em pleno século XXI e apesar dos avanços nesta matéria temos que tentar diminuir e, quem sabe um dia terminar, com o preconceito e a desvalorização da mulher. Em muitos locais as mulheres ainda sofrem de desigualdade salarial, a maternidade é olhada como prejuízo empresarial, e o mais terrível prende-se com o aumento de mortes por violência doméstica. Ainda falta muito para conquistar. Nunca se deixará de falar na condição da mulher mesmo que num futuro a questão da desigualdade já não se coloque, pois para chegar até aí houve história, um passado de luta por essa mesma conquista. E a história não se apaga.

<TKNT> Por quê a escolha da Ana Cristina Pereira?
<Luísa Pinto> Já seguia as reportagens da Ana Cristina Pereira e desde o seu livro “Meninos de ninguém” que tinha vontade de trabalhar um dos seus textos. Este projecto teve início quando li as entrevistas que a Ana Cristina Pereira fez a estas mulheres reais. Fiquei com vontade de levar à cena estas histórias. Desafiei a autora para uma adaptação para teatro e que resultou num espectáculo de teatro documental.

ONDE O FRIO SE DEMORA

<TKNT> Qual foi o teu processo de acompanhamento para estas personagens, a partir de mulheres reais entrevistadas por ti?
<Ana Cristina Pereira> O processo que conta, no meu caso, é o anterior. É o de “descobrir” estas 3 mulheres e de as pôr a falar na vida delas – no amor, no desamor, na violência, no envelhecimento, na solidão. Não há nada que as personagens digam que não tenha sido dito por essas mulheres. Não foram todas objecto de reportagem, como já vi referido. Conheci uma delas, a Susana, numa casa-abrigo para vítimas de violência doméstica e reencontrei-a mais tarde a trabalhar. Tivemos várias conversas antes de gravarmos uma longa conversa para o jornal. Outra, a Graça, conheço há anos. Tem uma história de amor clandestino que sempre me fascinou. Fizemos as gravações e fiquei com a transcrição algum tempo sem saber muito bem como contá-la. Acabei por fazer outro texto na primeira pessoa para o jornal. E a outra, a Ana, foi ouvida de propósito para a peça. Era a voz que faltava. Cabe-lhe, por exemplo, mostrar que as consequências da violência perduram nos filhos, por vezes, o resto da vida. Posto isto, não acompanhei muitos os ensaios. Apenas o necessário para fazer alguns acertos.

<TKNT> Consegues identificar o teatro… quer dizer… o que se sente quando se escreve para um palco e as mulheres não são fotografadas ou não têm a descrição pormenorizada. Esse teatro é o do poder , mais do que o jornalismo… ou essa questão nem se põe?
<Ana Cristina Pereira> Claro que identifico. O teatro documental é muitas vezes definido como uma conjugação de jornalismo com teatro. O jornalismo está na caracterização das personagens e nas suas palavras. E o teatro está na representação, na música, na imagem, na iluminação, na encenação. Foi muito interessante ver o resultado. As três mulheres continuavam lá, mas tinham adquirido a capacidade de representarem muitas outras.

<TKNT> O que gostavas de dizer a essas mulheres representadas no palco… Que alguma fosse ver…. Alguma foi ver a peça?
<Ana Cristina Pereira> A Susana assistiu uma vez à peça e a Ana duas. Gostaram muito, mas… Aquilo para elas é um espelho. Foi doloroso verem-se no palco. Fiquei feliz ao perceber que se reviram não só nas palavras, mas também em detalhes como a postura corporal ou o figurino… E que há nelas a esperança de, através desta peça, ajudar outras pessoas. Só a Graça não veio. Ela está fragilizada pela doença. Podia ficar perturbada.

<TKNT> Caberia algum homem nesta peça?
<Luísa Pinto> Claro que sim. A solidão, envelhecimento, doença mental é comum a homens e mulheres e até a violência na intimidade também embora aconteça maioritariamente no feminino. É uma peça sobre direitos humanos acima de tudo.

ONDE O FRIO SE DEMORA

Perguntas: Nuno F. Santos (só para caso de eventual gralha…. assumindo inteira responsabilidade)
Fotos: D.R.