«Nós Somos os Rolling Stones»: Somos Todos!

Artes Performativas

 

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«Nós somos os Rolling Stones». Nós, nós todos entre os zero e os cem. Nós somos os Rolling Stones. Ah, claro, o espectáculo que hoje estreia no Auditório Municipal de Gaia… a nova peça do TEP. O Teatro Experimental do Porto, em Gaia. Repararam no trocadilho? Enfim… outras viagens. O que nos propõem Gonçalo Amorim e Rui Pina Coelho, encenador e dramaturgo, respectivamente, é um manifesto! “Sim, um manifesto muito duro com os nossos inimigos e também nada meigo com os nossos amigos, com as pessoas de quem gostamos. Dizemos-lhes, às pessoas de quem gostamos: ‘ Então, como é que é? Faz alguma coisa! Pelo menos trata os outros bem! Não andes sempre de cabeça baixa, levanta-te e faz qualquer coisa. Está comigo! Olha-me nos olhos!’”. Apelo e manifesto na voz de Gonçalo Amorim, encenador, que aproveita o palco e a cenografia de Catarina Barros para mostrar um ponto de mira de um nadador salvador, um sítio paradisíaco com números que não param de crescer… são os números com a temperatura em graus centígrados. Da ilusão do agradável ao escaldante do inferno. Porra! Como escreve Rui Pina Coelho, o dramaturgo em sintonia com Gonçalo Amorim para quatro anos de teatro, esta peça é “uma convulsão febril onde a temperatura não pára de subir”. E depois, no palco, para lá dos Rolling Stones que não querem partir da tal “zona de conforto ou desconforto” que enchem jornais, rádios e televisões – ficam porque são os Rolling Stones! – há uma rotunda, dois irmãos portugueses numa noite de vigília e uma insónia na manhã de partida de Portugal para a Alemanha, Berlim. Talvez seja a felicidade?

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Antes do talvez ou, melhor, por entre as dúvidas pesam os prós e os contras. Não, não é o espectáculo da sociedade de informação. É o espectáculo de uma vigília, de uma anestesia, de um cansaço extremo com direito a visitas alucinadas em forma de fada, com uma gata, um cão e BOB, essa figura omnipresente que fala de forma directa como uma rock star. BOB fala sem papas na língua “um discurso de milagres e saídas limpas que não papamos”. Gonçalo Amorim refere-se ao “desemprego jovem que vai nos 40 por cento… 40 por cento que já atinge as pessoas entre os 25 e os 40 anos e, portanto, é uma hipocrisia estar o Governo a dar-nos os parabéns quando nos está é a apontar o caminho de saída”.

 

Entretanto, na rotunda, parada… Na rotunda um duplo sentido: “Tanto é esta coisa de que na rotunda tu partes a caminho de um sítio e aí podes encontrar a felicidade, como é também esta decisão constante, esta paranóia, esta depressão em que todos nos encontramos”. Na rotunda cantam-nos dez coisas que só conseguirmos pela via da emigração: “Conhecimento linguístico, histórias para contar, a lamechice que as suecas adoram, adrenalina ou paciência”. Algumas das dez coisas com impropérios extra para adensar o grotesco. “Mas a linguagem real é ainda pior do que o grotesco que acentuamos”.

A rotunda gira com uma casa, a temperatura aumenta bem como o consequente risco de convulsão real. BOB corre e sua, todos os outros também. À volta. Rolantes seres inanimados.
E giram e correm as frases como a sensação de desmaio. Caio ou não caio? Eu espectador. Eu pedra rolante também. É sobre mim não é? Eu, que me encaixo com aquilo com que o elenco se agiganta de raiva:

“O meu nome não é importante e isso, em Portugal, pode ser fatal”
“É jolie Portugal?”
“Cada mudança de casa é uma aprendizagem”
“Faz percursos de bicicleta e mostra a tua cidade aos turistas”
“Inventa, inventa-te man,
bate punho,
aulas de dança para bebés,
workshops de voz”
“Mobilidade laboral”… diz quem? Miguel Relvas? Não só, mas também!

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O politicamente hipócrita, Bob Dylan, «O Pássaro Azul», de Maurice Maeterlinck – esse simbolismo sobre a busca da felicidade -, Mick Jagger e o desejo de um sítio por Charles Bukowsky, cruzado com Paulo Furtado aka The Legendary Tigerman, que desenha a Banda Sonora. Muito mais do que uma canção ou metáfora.

Deixem-nos sossegados depois de tanta alucinação: “Devia haver um sítio para onde pudesses ir quando não consegues dormir”.

Pois devia…

<Texto>Nuno F. Santos
<Fotos>DR

Gonçalo Amorim (encenador);
Leonor Cabral – Leonor;
João de Brito – João;
Paulo Moura Lopes – “A Fada”;
João Cravo Cardoso – Cão;
Iris Cayatte – Gata
Daniel Pinto (BOB)
Cenografia e figurinos de Catarina Barros, sonoplastia de Luís Aly, desenho de luz de José Nuno Lima e Movimento de Vera Santos