Fernando Pessoa de Sua Avó

Artes Performativas

 

mostrengo rui portugal

Fernando Pessoa e a avó Dionísia. A história de uma relação verdadeira à mistura com fantasia sem limites. Uma velha louca e o neto jovem com medo de enlouquecer. Maria do Céu Guerra encena e  interpreta com Adérito Lopes «Menino de Sua Avó». O elenco que nos leva numa entrevista até ao palco do Teatro  Helena Sá e Costa, onde estará até Domingo. Atravessa Durban e Lisboa, a vida e a morte, o génio e a loucura, fantasmas e sessões espíritas. Aqui há espaço para Alexander Search ou Rafael Baldaia, os heterónimos menos conhecidos do poeta, aqui há espaço para Maria do Céu Guerra aceder a falar de “um país que não é para pessoas normais”, passe a redundância de brincar aos títulos de filmes e passe a redundância de falar do País… sempre do País. Mas qual País? A culpa é do entrevistador, influenciado à última das perguntas por um fantasma, influenciado à última pergunta da entrevista, com medo do mostrengo que leva as crianças…

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<TKNT> Quem é o protagonista aqui… em «Menino da Sua Avó»? O menino (Fernando Pessoa) ou a sua avó louca?
<Maria do Céu Guerra> O protagonista desta peça, sem falsa modéstia, é a relação destas duas criaturas. Eles são de tal maneira parceiros que as cenas estão até numericamente distribuídas. Claro que o Fernando Pessoa tem o protagonismo que a sua presença na Literatura lhe dá e a avó… a avó Dionísia tem a especificidade de ser uma velha louca. Quer dizer, ela tem acessos de loucura e, o mais curioso, é que o interesse nessa loucura é potenciado pelo medo do próprio Fernando Pessoa em enlouquecer. Porque ele tem – e isso é uma das verdades dos factos nesta peça – pavor de enlouquecer e estuda até a loucura. É o Alexander Search nesta peça, heterónimo pouco estudado. É o poeta jovem, o heterónimo que começa a existir mas que ainda não é diferenciado da personalidade do próprio Pessoa. É o menino cheio de medo de enlouquecer a avançar para a idade adulta.

<TKNT> E uma chegada a Lisboa a pontuar…
<Maria do Céu Guerra> Ele acaba de chegar de Durban (em Durban já tinha medo de enlouquecer), já começa a escrever textos assinados por Alexander Search, já começa a escrever com outros heterónimos menos importantes e este, o Alexander, já começa a conter o que ele depois vai ser. Já contém um pouco do Pessoa ele mesmo, já contém o Álvaro de Campos, já contém um bocadinho do Bernardo Soares. Já começa a conter as bases mas, sobretudo, o que a peça nos dá é que o encontro deste rapazinho com a avó louca é determinante em tudo aquilo que ele vai Ser daí para a frente. Quando Pessoa chega a Portugal e passa uns tempos a viver com a avó, é tão impressionado pela loucura dela que escreve aos professores de Durban e aos amigos, passando-se por alguém que está num hospital psiquiátrico onde o Fernando Pessoa estaria internado, com o intuito de saber se Fernando Pessoa já dava sinais de loucura em Durban. Ele quer saber, exactamente, se aquilo que o está a afligir tanto, o tal contacto com a loucura, já é uma coisa que está nele?

Alexander Search é mesmo um dos menos conhecidos heterónimos de Fernando Pessoa. Dados relevantes mostram-se nesta peça escrita por Nascimento Rosa e, surpreendentemente, não é só o público que vai descobrindo dados de uma arca imensa. Também o elenco sente que existem descobertas que não acabam. É disso que fala Maria do Céu Guerra.

<Maria do Céu Guerra> Este crescimento que começa no Alexander Search deve ser, eu penso, de interesse para os pessoanos. Porque, na verdade, há muito pouca coisa estudada sobre este heterónimo que começou por escrever em Inglês, só tardiamente foi traduzido e, quando traduzido, já havia uma série de heterónimos que estavam em estudo. A arca tinha sido praticamente aberta e havia imensas coisas a conhecer.
Em todo o lado se estuda o jovem Goethe o jovem Brecht. Acho então que o jovem Pessoa é muito importante ser lido e ser estudado, porque ele vai trazer luz a muita coisa.

<TKNT>A peça divide-se em capítulos e tem um intervalo para momentos mais leves, para uma abordagem do poeta menos institucionalizada? É assim? Passa essa fronteira?
<Adérito Lopes>Eu acho que passa essa fronteira na parte da fantasia de imaginarmos o que é a vida depois da morte dele, que não é investigável mas, apesar de tudo…  todo o resto, desde o lado brincalhão ao lado do Está não Está? Ao Sou não Sou? Enfim, esse lado foi investigado e tudo leva a crer que este Fernando Pessoa, escrito pelo Armando Nascimento Rosa, é o que se aproxima mais ao Fernando Pessoa Ortónimo. Mais do que aquele homem cabisbaixo, que grande parte tem ideia por sugestão de muita coisa.

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<TKNT> A morte vista pela avó? Estátuas… imortalidades, transladações… é a actualidade do Teatro que o Teatro tanto reclama?
<Maria do Céu Guerra> Eu falo muito no Alexander Search porque acho muito interessante que o Nascimento Rosa pegasse nos lados menos trabalhados. Realmente aparece neste espectáculo o Pessoa a braços com problemas, mas também o Rafael Baldaia que no fundo é o heterónimo a quem o poeta dá o seu lado espírita ou esotérico. A investigadora pessoana Luísa Monteiro conta que ele tentou fazer duas sessões espíritas pela avó e, isto, nem o Nascimento Rosa nem nós sabíamos….

<TKNT>Uma peça em progressão sempre…
<Maria do Céu Guerra> Sim. A avó vive até ao fim do primeiro acto e depois são os encontros deles já mortos. Foi um gancho do Nascimento Rosa para escrever a peça. Temos a avó viva no regresso de Fernando Pessoa a Lisboa; Ela morre; Ele vai visitá-la; Ela anda à procura dele e encontra-o, mas ele esconde-se atrás de um heterónimo e já os dois mortos tem duas cenas….

<TKNT> É quase shakespeariano? Os fantasmas….
<Maria do Céu Guerra> Sem dúvida. São sombras… é verdade, o Pessoa gostava muito do Shakespeare…
<Adérito Lopes> No texto eles falam mesmo da Ofélia, da Dionísia e dessas sombras

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<TKNT> A determinada altura vocês falam de um ser a Loucura e o outro o Génio. A relação protagonista resulta num Louco Genial?
<Adérito Lopes> Podia até ser o nome da peça…
<Maria do Céu Guerra> A avó diz a certa altura:
Você sabe que chamaram à Literatura que o meu neto e que os amigos publicaram na Orpheu, ‘literatura de doidos’, e eu senti-me tão orgulhosa e disse para comigo: Dionísia…. foste uma inspiração para o teu neto. Se tu não tivesses sido tão louca, ele não teria sido tão genial”. E acrescenta: “É muito importante que um artista se dê com loucos desde tenra idade”. Ela tem… quer dizer ela… ora bem, há duas ou três coisas que aconteceram de verdade e que estão nesta relação e que o Nascimento Rosa pegou de uma forma sábia e irreverente e quase pirandelliana. É verdade que a avó deu os 700 contos ao seu “fernandinho” e, louca ou não louca, é verdade que lhe deu aquele dinheiro e viveu mal, pobremente, sendo posta no manicómio. É também verdade que a única pessoa de família que esta velhota tinha era o neto. Mais. A única pessoa que publica a notícia do óbito é o Fernando Pessoa. Sai no jornal um obituário com uma ternura incrível, escrita por um rapaz com 18 anos à altura… não é vulgar. Os 700 contos foram para a tipografia… também é um dado. Como também é um dado a tal carta para Durban. Fernando Pessoa achava graça ao universo do esoterismo, não acho que fosse propriamente crença. Tudo aquilo que lhe mete medo ele acha graça…

<TKNT> Refugia-se como nos heterónimos?
<Maria do Céu Guerra>Sim refugia e é de um universo que permite a um autor correr muitos riscos e imaginar muito. Quando há debates, espero bem que consigamos programar um debate no Porto, por exemplo, há sempre gente que sabe coisas que nem nós nem os grandes estudiosos sabem.
<Adérito Lopes> É uma peça que não é datada, pode ser apresentada a qualquer momento.
<Maria do Céu Guerra> Eu gostava muito de continuar essa exploração (Maria do Céu Guerra diz isto para Adérito Lopes)

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<TKNT> Haverá 700 contos de uma avó dos dias de hoje para os seus netos? haverá loucura que salve? (Por entre as perguntas faço eu próprio considerações e perco-me. Também por isso esta entrevista é tão individualizada)
<Maria do Céu Guerra> Faz-me uma pergunta que são mil, mas eu vou encaminhar para um sentido e o Adérito para outro, porque somos pessoas diferentes. (Pausa)
Aqui, e em todo o mundo, deixámos de ser países que têm o cuidado de fazer crescer os seus. Ou seja, basta-me falar do 25 de Abril, porque até cá começou a democratização da Saúde, da Educação, etc., o País começou a ser olhado como um Todo e o País eram as pessoas. Bem como as pessoas eram o País. E, neste momento, nós temos um crescimento tão desigual que me dá a sensação que até se agradece que os jovens, por exemplo, desistam de ser gente! O mundo não é para heróis, titãs ou atletas, é para pessoas normais! Depois daí saem os génios, de todas as áreas, evidente. Essas pessoas normais precisam de ser preservadas e, ao contrário, são atiradas para um vazio. Ora, como não são atletas da alma ou atletas do corpo não têm espaço. Exigem-se brutalidades de notas para cursos e outros tornam-se ministros com meia dúzia de cadeiras feitas. Pois, mas a maioria é obrigada a coisas de Sansão. Este País está todo partido: temos dois milionários no grupo das maiores fortunas do mundo…. entraram Agora para esse ranking. No meio desta crise, no meio desta quantidade de gente que está a ser expulsa da vida, acontece ao mesmo tempo a preservação de uma elite. Porque lhe respondo por este caminho? Por causa desta impossibilidade de olhar para este sítio… que agora é um sítio chamado Portugal mas não um país… porque um país sempre tem uma orientação, ainda que com erros. Se há espaço para esta avó e este neto? Há até espaço para uma avó deixar 700 milhões ou 700 mil milhões, se os netos forem privilegiados. Se é pela loucura que vamos? A loucura é uma porta para a liberdade, mas não podemos olhar para ela como uma salvação. No entanto, a tolerância para A Não Normalidade é fundamental!

<Adérito Lopes>: Avós e netos, disponibilidades…. As pessoas querem Ter muito e não Ser. Preocupam-se pouco em Ser (Shakespeare, mais uma vez, pelo intérprete de Pessoa… ‘Ser ou Não Ser Eis a Questão’) e nós, em conversas a dois, por exemplo, falamos que se conseguirmos orientar ou dar um caminho a uma ou duas pessoas já é muito bom. Foi depois de um espectáculo que vi e de que gostei muito que decidi ser actor profissional. A Maria do Céu tem discípulos, eu posso ser um deles. Ela tem alunos, tem pessoas que encaminha. Não os vai conseguir encaminhar todos, mas se conseguir encaminhar ou salvar… salvar sem aspas mesmo, uma ou meia dúzia, já é muito.

<Entrevista> Nuno F. Santos
Fotos : Luís Rocha / Abertura (Rui Portugal)

Ficha Técnica:

 

Texto inédito de
Armando Nascimento Rosa

Criação de
Maria do Céu Guerra e Adérito Lopes
Encenação Partilhada

Apoio
Rita Lello

Música original
António Victorino d’Almeida

Harpa
Ana Dias

Cenografia e figurinos
Marta Fernandes da Silva

Vídeo
Paulo Vargues

Sonoplastia
Ricardo Santos

Iluminação
Fernando Belo

Produção Executiva
Paula Coelho e Inês Costa