Culpa, Prazer e Melancolia por Mara Andrade e Marco Ferreira

Artes Performativas

 

fotografia (7)

A culpa universal e estudada pela dupla Mara Andrade e Marco Ferreira é representada e apresentada este sábado no GUIDANCE, Festival Internacional de Dança Contemporânea. «Por Minha Culpa, Minha Tão Grande Culpa», espectáculo no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, explora o sentimento de felicidade que as pessoas sentem na tristeza dos outros. Schadenfreude, assim se designa o fenómeno, e Mara Andrade e Marco Ferreira coreografam e interpretam múltiplas formas agressivas de partilharem o mesmo espaço sem nunca se olharem. Corroem-se por dentro numa luta corpo a corpo e não se tocam. Já dissemos que não se olham? Já… então acrescentamos: Não se olham e não se tocam numa solidão imensa e o que sentem passa para o público. O público é o terceiro intérprete e garante Marco que mesmo o que nos parece sensual é dúbio… “o prazer é ambíguo”. O espectáculo, que já vimos no ciclo Palcos Instáveis, no Teatro do Campo Alegre (Porto) sucede a um outro no mesmo palco, com Mara Andrade novamente no centro da coreografia. «Oxitocina» é a mostra perigosa de sensações de prazer que levam à morte… a melancolia da mulher/instrumento. E quem tem culpa? Voltemos à culpa e à performance que junta os dois intérpretes em palco.


No momento exacto em que pensamos que a dança pode ser a mais perfeita forma de comunicar sem falar, tendo em conta algumas expressões e do movimento associado, ali está Mara Andrade no seu solo sob uma luz vermelha: “Estão à espera que eu dance?!! Quem quiser pode sair!”. Mal temos tempo de nos surpreender com a verbalização e aí está ela num quase ‘strip’, forçado aos olhos de todos os voyeurs e preconceitos do subconsciente. Dançar assim é o que é suposto fazer uma mulher ao som da música em loop, independentemente da sua vontade, entendam de uma vez por todas! (E aqui arriscamos dizer que Oxitocina e Por Minha Culpa, Minha Tão Grande Culpa só poderiam mesmo estar ligados, ainda que apresentados de forma autónoma). E a mulher, contrariando o que tinha dito há um segundo, seguindo o lado sádico do Nosso subconsciente machista, por exemplo, dança mesmo. No fundo, e durante 40 minutos dança-se a pergunta de Mara e Marco: “e se todos fôssemos conscientes do que fazemos…. quais seriam as nossas expressões”?

P.S.: Na conversa de há uns tempos, perguntou Mara no fim: “É muito confuso?”
A resposta é universal: “o subconsciente nunca será transparente e claro”.

Nuno F. Santos (Texto)
Pat (Foto)